Profissão de caminhoneiro hoje é sinônimo de romantismo ou capacitação? Sensação de liberdade e de conhecer diversos lugares e pessoas alimentaram o desejo de jovens de várias gerações a se tornarem motoristas de caminhão. Na maioria das vezes a profissão era herdada do pai ou de algum parente próximo, os quais eram responsáveis também por dar as primeiras instruções sobre o caminhão.

A relação na estrada era baseada no companheirismo, nas conversas em postos de serviços ou até mesmo pelo rádio PX. A vida na estrada era cobiçada e invejada; ser caminhoneiro era motivo de orgulho. Donos do tempo, os profissionais traçavam e decidiam sobre as melhores rotas para chegar ao seu destino.

Apesar de todo o romantismo em torno da profissão vivenciado hoje pelos veteranos, até um passado recente, os profissionais do volante sofriam com a falta de infraestrutura nas rodovias, os caminhões não eram tão confortáveis como os produzidos de uns anos para cá, que deixaram no passado a alcunha de brutos. E a comunicação, mesmo com o PX, era mais difícil. Para ter contato e notícias da família era preciso lançar mãos a um aparelho telefone público, mas que nem sempre estava próximo.

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O veterano Alvino Buher lembra de uma época em que os motoristas se ajudavam mais nas estradas. Seu primeiro caminhão foi um FNM 1962

Porém, os caminhoneiros eram mais respeitados e existia mais coleguismo, lembra o veterano Alvino Buher Machado Filho, de São José dos Pinhais/PR. Hoje, com 63 anos na atividade, ele diz que recorda com saudade de quando começou na profissão em 1975. Conhecido no trecho como Ito Bir, Alvino conta que o desejo de ser caminhoneiro começou muito cedo. Aos 12 anos ele viajava com os irmãos em um Ford ano 1964 e um FNM 1960. Com o passar do tempo foi aprendendo mais sobre caminhão assim como o interesse pela profissão, até que ao completar 18 anos de idade tirou a Carteira de Habilitação e comprou o primeiro caminhão, um FNM 1962.

Entre suas lembranças, Ito Bir recorda das viagens entre o Paraná e São Paulo nas quais muitas vezes deparavam na estrada com algum colega com problema no caminhão e todos paravam para ajudar. “Era um pouco diferente de hoje, mas os motoristas não param porque são ruins ou não querem ajudar, mas sim porque todos têm de cumprir horário ou fazer mais viagens para conseguirem pagar as contas”, avalia.

Ito destaca também a eficiência, conforto e segurança dos caminhões do passado em relação aos caminhões atuais. “Hoje você não trabalha e sim passeia, pois os recursos permitem uma viagem mais tranquila e com menos problema no veículo. Inclusive hoje o motorista nem precisa descer para consertar o pneu, basta ligar para a empresa e o socorro vem. Bem diferente de outras épocas quando assumíamos o papel de motorista, borracheiro, chapa, mecânico e tudo mais”, brinca.

As estradas também são outro ponto lembrado por Alvino quando se trata da evolução no transporte. Ele conta que a rota entre Curitiba e São Paulo sempre foi um problema, especialmente nos trechos das Serras do Azeite e do Cafezal, ambas cortadas pela Régis Bittencourt (BR-116). “Aconteciam muitos acidentes. Eu perdi muitos amigos nessa rodovia, e também perdi muito tempo parado em congestionamentos extensos. Uma viagem que poderia ser feita em cinco horas chegava a demorar 10. Hoje está uma maravilha, tudo duplicado”, comparou.

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Os aplicativos e os meios digitais também chegaram para facilitar o dia a dia na estrada. Ito conta que utilizava mapas de papel para traçar as rotas. Ele lembrou que ocasionalmente a revista O Carreteiro trazia um mapa encartado nas edições. “A revista O Carreteiro sempre me ajudou na profissão. Lembro de pegar várias dicas de oficina e de carga, e tinha ainda o Zé Sujinho. Eu adorava as histórias. Tenho edições desde 1976 e até hoje acompanho a publicação. Ela sempre esteve presente na minha história como caminhoneiro. Hoje sinto saudade da Feira do Carreteiro”, concluiu.

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O motorista Jader Lopes de Magalhães conta que a revista O Carreteiro o ajudou muito na profissão.

Jader Lopes de Magalhães, 58 anos de idade e 30 de profissão, de Jacarepaguá/RJ, também conta que a revista O Carreteiro o ajudou muito na profissão. Ele acompanha as edições desde 1995. “Sempre gostei das dicas da Revista e através dela achava as melhores peças e produtos para o meu caminhão. O encontro com os colegas na Feira do Carreteiro também marcou bastante a minha carreira”, comentou.

Na opinião de Jader Lopes, o que mais melhorou nos últimos anos foram as estradas e os caminhões, mas quanto ao frete aconteceu o contrário, porque  foi piorando ao longo do tempo. “O que recebemos hoje, na maioria das vezes não fecha com o gasto com diesel e o desgaste do caminhão. Sem falar nas dificuldades de carregar e descarregar. As vezes ficamos dois dias esperando para descarregar. As empresas ainda usam o caminhão como depósito”, desabafou.

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Heraldo Almeida diz que fez vários cursos de treinamento e capacitação. Ele comenta que os caminhões modernos exigem cada vez mais conhecimentos controu as melhores peças e produtos para o seu caminhão

Já o motorista Heraldo Almeida, de São Paulo/SP, 51 anos de idade e oito na profissão, diz que vê mudanças em algumas coisas desde seu ingressou na atividade. Ele cita que fez vários cursos de capacitação e treinamentos, coisa que antigamente os motoristas não faziam. “Acredito que exista muita resistência de alguns profissionais para fazerem cursos e se atualizarem. Porém, os caminhões estão cada vez mais modernos e o motorista precisa de ter capacitação, treinamento e mais conhecimento.

Apesar dos poucos anos na profissão, Heraldo já notou várias mudanças desde quando começou na profissão.  “Meu salário era melhor. Hoje percebo que não passamos de números, os benefícios foram cortados e as horas-extras não são pagas de maneira justa”, afirma.  Ele reclama também de uma lei que defenda de fato os interesses dos caminhoneiros. Porém, assim como os colegas mais antigos de profissão, destaca que os caminhões são mais confortáveis e cada vez mais carregados de tecnologias que ajudam o motorista a dirigir de maneira segura e eficiente.

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O carreteiro Marcelo Fernando Ramos destaca que as tecnologias e a evolução trouxeram mais segurança e facilitaram o trabalho do motorista de caminhão

Com 23 anos de profissão, Marcelo Fernando Ramos Batista, 46 de idade, de Seropédica/RJ, também acrescenta que muitas coisas mudaram na profissão. Diz que antigamente havia na estrada mais companheirismo e profissionalismo entre os motoristas. “Sinto falta dessa amizade e de colegas de profissão que realmente são profissionais”, lamenta. “Eu amo a profissão, mas tem horas que penso em abandoná-la em razão da maneira que nos tratam por conta de atitudes de maus motoristas”, desabafou.

Assim como os demais colegas, Marcelo fala das mudanças no setor de transporte provocadas principalmente pela evolução dos caminhões e das tecnologias que trouxeram mais segurança e também facilitaram o trabalho do motorista. Cita também a importância da revista O Carreteiro para ele em seus anos na profissão. “Essa publicação nos ajuda a ficar atualizados das mudanças e da evolução do setor e nos mantêm informados das novidades mais importantes”, finalizou.

Para Marco Antônio Mendes, de Canoinhas/SC, a principal mudança na profissão foi o ganho de conforto e de tecnologia nos caminhões. Destaca que as cabines maiores, mais confortáveis e a automatização reduziram o cansaço do motorista das viagens longas”. Porém, Mendes lembra que a categoria convive com altos preços do diesel, pedágio e também dificuldade para trafegar em algumas regiões do País. “As estradas do Maranhão, por exemplo, estão em péssimo estado de conservação, sem sinalização e esburacadas”, registrou.

Marco Antonio fez questão de citar a importância da revista O Carreteiro para manter o caminhoneiro informado das principais mudanças do setor, lançamento de caminhões e novas tecnologias. “Sempre li a revista e através dela acompanhei todas essas mudanças que para nós foi de grande importância. Tenho muitas edições guardadas, que para mim são como um arquivo histórico de toda a evolução do transporte. Não sei se meus filhos vão seguir nessa profissão, mas informação não vai faltar para eles”, explicou.

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O presidente da CNTA, Francisco Pelúcio, lembra que o filho viajava
com o pai no caminhão e aprendia a profissão, mas hoje isso não existe mais

O presidente da NTC&Logística, Francisco Pelúcio, lembra de uma época em que, segundo ele, havia maior aproximação entre o caminhoneiro e as empresas de transporte. “O motorista era apresentado por um amigo ou por outro colega e a gente contratava. Você olhava no olho, ele era amigo do dono da empresa e existia o contato diário dentro e fora do trabalho. O filho viajava com o pai no caminhão e aprendia a profissão. Cansei de contratar filhos de motoristas”, comentou o dirigente lamentando que isso não existe mais hoje em dia, pois tudo está ficando mais difícil e mais corrido.

Para Pelúcio, hoje o motorista é quase um universitário formado, pois as inovações exigem adaptação como fazer treinamentos e reforça que a população ganha também, sobretudo com a redução dos acidentes nas estradas.  Ele ressalta que o motorista é o de maior importância no setor de transporte e afirma que é preciso trazer mais gente para o setor, promover mais treinamentos e valorizar a categoria, porque a falta de profissionais preparados para dirigir caminhão já está sendo sentida pelas empresas de transporte em todo o Brasil.

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O impacto da revolução tecnológica chegou para o caminhoneiro autônomo como em todos os segmentos, comenta Marlon Maues, da CNTA

Para Marlon Maues, assistente executivo da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), o impacto da revolução tecnológica chegou para o motorista autônomo como em todos os segmentos. Começando com incremento da tecnologia embarcada nos caminhões e também os meios de comunicação como a internet e soluções por ela trazidas com o Whatsapp, Facebook e Instagram.

“Além da necessidade dos motoristas terem de adequar seus caminhões a essa demanda, também se fez necessária capacitação profissional, desde como operar os caminhões para um melhor desempenho – e por consequência maior competividade – até a lidar com celular, aplicativos e também  adquirir habilidades de relacionamento e comercial para gestão do seu negócio”, explicou.

Especificamente sobre o carreteiro autônomo, o assistente executivo da CNTA reforça que o profissional não pode mais ter a mesma cultura de anos atrás, quando ele aprendia a dirigir e seguia na profissão. “Hoje é preciso estar mais capacitado. O caminhoneiro autônomo é um prestador de serviço e como outros profissionais prestadores de serviço a capacitação cria o diferencial para que seja contratado e tenha mais transportadores e embarcadores interessados em seus serviços”, concluiu.