O mercado brasileiro de ônibus vive um momento de transição. Depois de um início de ano marcado por cautela e dificuldades no acesso ao crédito, o setor começa a dar sinais de recuperação, sustentado pela necessidade de renovação das frotas, programas governamentais, como Move Brasil e busca crescente por eficiência operacional.

Essa é a avaliação de Ricardo Alouche, vice-presidente de Vendas, Marketing e Pós-Vendas da Volkswagen Caminhões e Ônibus, que apresentou a visão da fabricante para o setor durante encontro com jornalistas antes da Lat.Bus 2026.

Segundo o executivo, a expectativa é que o mercado encerre o ano entre 22 mil e 24 mil ônibus emplacados, conforme projeções da Anfavea e da Fenabrave. Para ele, o transporte de passageiros entra em um novo ciclo de crescimento. “O mercado está reagindo. Existe demanda por renovação e ampliação de frota, mas a decisão de compra está mais criteriosa por conta dos juros elevados e da seletividade do crédito”, afirma Alouche.

Apesar dos desafios, a Volkswagen demonstra otimismo. A montadora registrou em abril o melhor resultado de vendas de ônibus no varejo desde 2014 e afirma ter uma carteira robusta de pedidos para os próximos meses.

Move Brasil 2 impulsiona negócios

Entre os fatores que sustentam a expectativa positiva da fabricante está o programa Move Brasil 2, lançado pelo Governo Federal para facilitar o financiamento de caminhões e ônibus.

O programa disponibilizou R$ 21,2 bilhões em crédito com condições mais favoráveis, incluindo prazos maiores e carência para pagamento. Segundo Alouche, o impacto já começou a ser percebido no mercado. “A antecipação de compras já aconteceu. Na primeira semana de operação do programa já havíamos financiado mais de 150 ônibus e hoje esse volume já supera 200 unidades”, revela.

Embora os reflexos ainda não apareçam nos dados de emplacamentos devido ao tempo necessário para produção, encarroçamento e licenciamento dos veículos, a expectativa é que os números ganhem força a partir do segundo semestre.

Move Brasil 2 acelera decisões de compra e pode esgotar recursos até agosto

Além de melhorar as condições de financiamento para caminhões e ônibus, o Move Brasil 2 já está provocando uma corrida das empresas para garantir acesso aos recursos disponíveis.

Segundo Ricardo Alouche, o programa conta com R$ 21,2 bilhões em crédito, volume duas vezes superior ao disponibilizado na primeira fase. No entanto, o executivo acredita que os recursos podem ser consumidos rapidamente. “O cliente já conhece as vantagens do programa. Não precisa mais esperar para ver se funciona. Por isso acreditamos que os recursos podem ser utilizados em sua totalidade até meados ou o final de agosto”, afirma.

De acordo com a Volkswagen, o cenário atual é diferente do observado na primeira edição do programa. Entre o encerramento do Move Brasil 1 e o início do Move Brasil 2 houve um intervalo de cerca de 45 dias sem recursos disponíveis. Nesse período, diversas negociações continuaram avançando e ficaram apenas aguardando a homologação do novo programa pelo BNDES.

Assim que a linha foi liberada oficialmente, os financiamentos começaram a ser contratados imediatamente, uma vez que bancos, concessionárias e clientes já estavam preparados para operar com as novas regras.

Outro fator que deve acelerar o consumo dos recursos é a ampliação do escopo do programa. Enquanto o Move Brasil 1 financiava apenas o caminhão, o Move Brasil 2 passou a contemplar também ônibus, carrocerias e implementos rodoviários, aumentando significativamente a demanda pelos recursos.

Move Brasil 2: fretamento, urbanos e micros lideram procura

No segmento de ônibus, a Volkswagen relata forte procura em praticamente todas as categorias de veículos movidos a diesel. “Estamos vendendo micro-ônibus, ônibus urbanos e muitos veículos para fretamento. O programa virou um catalisador dos negócios”, explica Jorge Carrer, diretor de Vendas de Ônibus da Volkswagen Caminhões e Ônibus.

Segundo ele, diversas negociações que ainda estavam em fase inicial foram aceleradas pela perspectiva de esgotamento dos recursos. Carrer explica que há casos de clientes que tradicionalmente aguardariam a realização da Lat.Bus ou até mesmo o segundo semestre para renovar suas frotas, mas anteciparam a decisão para garantir acesso às condições especiais de financiamento.

A Volkswagen destaca ainda que, até o momento, os financiamentos estão concentrados em veículos a diesel. No caso dos ônibus elétricos, a maior parte das vendas ocorre na cidade de São Paulo, onde os operadores contam com mecanismos próprios de financiamento e subsídios oferecidos pela prefeitura.

Outro aspecto que aumenta a urgência das compras é o prazo de vigência do programa. Como o Move Brasil 2 foi instituído por medida provisória, os contratos precisam ser formalizados até o final de agosto. Além disso, o veículo precisa estar disponível para faturamento dentro desse período, o que tem levado transportadores a anteciparem seus pedidos para garantir a entrega e a liberação do crédito. “Quem deixar para decidir muito perto do prazo pode não conseguir concluir todo o processo de produção, encarroçamento e financiamento a tempo”, alerta Carrer.

Frota envelhecida cria demanda reprimida

Outro fator que favorece a retomada é o envelhecimento da frota nacional. De acordo com a Volkswagen, a idade média dos ônibus passou de 4,8 anos durante o período da pandemia para cerca de 6,3 anos atualmente. Em muitos sistemas de transporte urbano, esse índice já supera os limites estabelecidos nos contratos de concessão. “A renovação da frota não é apenas uma questão operacional. Ela é necessária para reduzir custos, aumentar a produtividade e atender às exigências dos contratos com prefeituras”, destaca Alouche.

Além disso, programas como Caminho da Escola e Caminhos da Saúde devem contribuir para movimentar o setor. Juntas, as duas iniciativas somam mais de 10 mil veículos licitados entre ônibus escolares, micro-ônibus e vans.

Eficiência passa a definir a compra

Se antes a escolha de um ônibus era fortemente baseada na tradição da marca, hoje o cenário mudou. Segundo a Volkswagen, o custo operacional total (TCO), consumo de combustível, disponibilidade do veículo e qualidade do pós-venda tornaram-se fatores decisivos para os operadores. “Menos impulso e mais eficiência. É assim que o cliente decide a compra atualmente”, resume Alouche.

Essa mudança de comportamento também explica o crescimento da demanda por tecnologias que aumentem a produtividade das frotas, reduzam paradas e ofereçam maior rentabilidade ao transportador.

Novidades da Volksbus para a Lat.Bus 2026

A Volkswagen adiantou também uma série de novidades para ampliar seu portfólio. Entre os destaques está o novo painel 100% digital, que passará a ser oferecido como opcional em toda a linha Volksbus a partir de 2027. Com tela de 10 polegadas e mais de 80 funcionalidades, o sistema permite monitoramento mais preciso da operação, consumo e desempenho dos motoristas.

Outra grande aposta da fabricante é a ampliação da família de ônibus elétricos. Além do e-Volksbus 22L, modelo piso baixo já em operação em cidades como São Paulo, a marca lançará o e-Volksbus 22H, versão piso alto destinada a sistemas BRT, corredores exclusivos e operações de fretamento.

O novo modelo mantém as baterias de lítio-ferro-fosfato de 385 kWh, autonomia média de 250 quilômetros e motor elétrico de 280 kW, além de incorporar tecnologias de segurança ativa e carregamento rápido.

Segundo Jorge Carrer, diretor de Vendas de Ônibus da Volkswagen Caminhões e Ônibus, a estratégia é ampliar a presença da marca na eletromobilidade sem perder o foco na realidade operacional dos clientes. “Não estamos trazendo tecnologia apenas por modismo. Desenvolvemos soluções adequadas às necessidades do transporte brasileiro, sempre considerando custo operacional, disponibilidade e rentabilidade”, afirma.

Atualmente, a Volkswagen já contabiliza cerca de 260 unidades do seu ônibus elétrico comercializadas.

e-Volksbus 22H e 18H desenvolvidos para aplicações de piso alto.

Embora compartilhem a mesma base tecnológica, os dois modelos atendem necessidades distintas. O e-Volksbus 22H foi desenvolvido para operações urbanas em corredores e sistemas que utilizam embarque em nível, enquanto o e-Volksbus 18H foi pensado para aplicações de fretamento e trajetos com velocidades mais elevadas.

Segundo Jorge Carrer, os dois modelos utilizam o mesmo conjunto de baterias de lítio-ferro-fosfato, podendo receber configuração com 12 packs, que garante autonomia média de 250 quilômetros, ou uma versão com oito packs, oferecendo cerca de 200 quilômetros de autonomia e menor custo de aquisição. “A diferença principal está na aplicação. O 18H utiliza uma relação de eixo mais longa e pneus que permitem velocidades de até 90 km/h, tornando-o adequado para fretamento e operações rodoviárias”, explica.

O veículo tem peso bruto total limitado a 18 toneladas. Já o 22H mantém a configuração voltada ao transporte urbano. Os dois modelos também se diferenciam dos atuais ônibus elétricos de piso baixo da marca pela disposição das baterias. Nas versões de piso alto, todos os packs ficam posicionados na parte inferior do veículo, contribuindo para um centro de gravidade mais baixo e melhor distribuição de peso.

Seleção Brasileira viaja de Volksbus

Outro destaque apresentado pela fabricante é a parceria com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A Volkswagen disponibilizou dois ônibus Volksbus 18.320 SH 6×2 para transportar a Seleção Brasileira durante toda a preparação para a Copa do Mundo.

Os veículos contam com motor MAN de 320 cavalos, transmissão automática ZF de oito marchas, suspensão pneumática integral e configuração VIP, com poltronas reclináveis, Wi-Fi, frigobar e mesas para os atletas e comissão técnica. A ação reforça a estratégia da marca de associar seus produtos à confiabilidade, conforto e tecnologia, atributos que também pretende destacar durante a Lat.Bus.

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