Dirigir caminhão é um sonho que atravessa gerações e move muitos brasileiros. Entre os motoristas surdos, esse desejo é o mesmo. A diferença, são os obstáculos no caminho. Mesmo com a legislação permitindo que pessoas com deficiência auditiva obtenham habilitação nas categorias profissionais, o preconceito e a falta de preparo institucional ainda dificultam o acesso desses profissionais ao mercado de trabalho.
Enquanto isso, projetos e iniciativas de inclusão vêm ganhando força para derrubar barreiras, ampliar oportunidades e mostrar que, embora dirijam em silêncio, esses caminhoneiros têm a mesma paixão, competência e responsabilidade de qualquer outro na estrada.
Projetos como o Caminhoneiros Surdos do Brasil, idealizado por Raquel Moreno, mostra que a surdez não é um impedimento para a condução segura. Com treinamento, comunicação visual e vontade de aprender, esses profissionais têm mostrado que competência não se mede pelo ouvido e sim pela dedicação e olhar atento na estrada.

Ainda em processo de formalização como instituição, o projeto já atua de forma ativa em todo o país, oferecendo apoio e orientação a motoristas que enfrentam dificuldades nos Detrans ou junto às empresas de transporte.
Segundo Raquel, a legislação atual determina que o candidato à CNH profissional pode ter, no máximo, 40 decibéis de perda auditiva no melhor ouvido. O caminho até a habilitação não é simples e alguns fatores impedem os candidatos de concluírem o processo.
“O preconceito é o principal. Muitos questionam como o motorista surdo vai ouvir o pneu estourando ou até mesmo a sirene da ambulância? Mas, vale lembrar que o surdo é extremamente visual. Ele percebe a vibração de um pneu estourado, enxerga a ambulância pelo retrovisor. A limitação não impede a direção segura”, explica.
Ela relata que um dos maiores entraves está nos órgãos de trânsito. Mesmo que o candidato passe em todos os exames, muitas vezes não é aprovado por falta de preparo. “Tem surdo que não consegue sequer passar da recepção por não haver profissionais que se comunicam em libras. Muitas vezes eu mesma faço videochamadas para intermediar a comunicação entre o médico e o candidato.”
Mas, apesar das dificuldades Raquel acredita em um caminho de maior inclusão. “Hoje estimamos que existam mais de 50 caminhoneiros surdos habilitados no Brasil, mas apenas cerca de 10% realmente estão trabalhando. A maioria que atua profissionalmente tem caminhão próprio. “Temos também relatos de empresas que contrataram motoristas surdos e consideram seu desempenho excelente.”
Para ela, o caminho para ampliar a inclusão passa pela informação e sensibilização das empresas e dos órgãos públicos. “Falta conhecimento e sensibilização. Quando conseguimos apoio político, como o envio de ofícios aos Detrans, a aprovação de candidatos aumenta. Também precisamos conscientizar transportadoras de que o surdo pode, sim, ser um bom motorista e até ajudar a suprir a escassez de profissionais no setor.”
Para Raquel, o futuro do transporte depende de um olhar mais humano e acessível. “A inclusão, diz ela, é um caminho sem volta e uma oportunidade de mostrar que a competência de um motorista vai muito além da audição”, disse.
Mesmo com a legislação brasileira permitindo que pessoas surdas obtenham habilitação profissional e dirijam caminhões, a presença desses motoristas nas transportadoras ainda é rara. Na visão de Sílvio Kasnodzei, presidente do SETCEPAR (Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná), o principal entrave é o desconhecimento.
“O que ainda impede o avanço da inclusão é a falta de informação sobre como se dá, na prática, a atuação desses profissionais. Muitas empresas têm dúvidas quanto às adaptações necessárias e ao impacto na segurança operacional, o que gera cautela no momento da contratação”, explica.
Segundo ele, embora o preconceito ainda exista em alguns casos, a resistência das transportadoras está mais relacionada a questões técnicas do que a julgamentos pessoais.
“Os fatores predominantes são as dúvidas sobre segurança e integração operacional. Com mais conhecimento e orientações claras, essas barreiras tendem a ser reduzidas, explicou.

“Cada transportadora tem autonomia para avaliar sua realidade operacional. Nosso papel, como entidade representativa, é apoiar o debate e levar informações que reduzam as inseguranças e abram oportunidades”, afirma.
Entre as medidas que poderiam facilitar esse processo, Kasnodzei destaca a importância de treinamentos voltados à comunicação e o uso de recursos visuais. “Há adaptações simples que podem ser aplicadas, como a implantação de sinais visuais, protocolos de operação que favoreçam a integração e o uso de tecnologias de apoio. Tudo isso pode ser feito sem comprometer a segurança”, reforça.
Apesar do interesse crescente, o SETCEPAR ainda não registrou transportadoras associadas que tenham motoristas surdos contratados. No entanto, algumas empresas já estudam formas de implementar essa inclusão de maneira estruturada.
“Existem estudos em andamento para entender como essa contratação pode acontecer com segurança e eficiência. É um processo que depende de informação e diálogo”, comenta.
Kasnodzei acredita que a conscientização e o treinamento interno são os principais caminhos para romper o preconceito e construir confiança. “Campanhas de esclarecimento e capacitação são fundamentais. Os incentivos também ajudam, mas o mais importante é criar um ambiente de informação e confiança, mostrando que a inclusão é possível e segura.”
Na visão do dirigente, a legislação atual já garante o direito de motoristas surdos exercerem a profissão, mas ainda há espaço para ajustes que deem mais segurança jurídica às empresas. “A lei permite, mas é importante que o setor produtivo e os órgãos reguladores mantenham o diálogo aberto para aperfeiçoar o processo e dar mais tranquilidade às transportadoras”, observa.
Por fim, ele destaca que a diversidade é um movimento irreversível e que o transporte não pode ficar de fora dessa transformação.
A inclusão de pessoas surdas no transporte rodoviário de cargas ainda é um tema recente, mas empresas como a Rodopiro Transportes vêm mostrando que é possível transformar diversidade em valor e eficiência. A transportadora, especializada em cargas especiais, contratou seu primeiro motorista surdo como parte de uma iniciativa interna voltada à equidade e ao respeito às diferenças.

A executiva conta que a iniciativa gerou, no início, certo receio natural, já que a contratação de um motorista surdo ainda é rara no setor. No entanto, a receptividade foi positiva tanto da diretoria quanto dos demais colaboradores.
“Foi um desafio natural, afinal, estávamos quebrando um paradigma. Mas a diretoria e os colaboradores abraçaram a iniciativa com abertura e disposição para aprender. Investimos na capacitação da equipe, oferecendo cursos de Libras e promovendo diálogos sobre inclusão. Esse processo fortaleceu o espírito de colaboração e respeito entre todos”, explica.
Mais do que uma ação pontual, a contratação faz parte de uma estratégia maior de diversidade e inclusão dentro da transportadora. “Na Rodopiro, acreditamos que a diversidade não é apenas um valor, mas um caminho para resultados mais sustentáveis e humanos. Equipes diversas trazem diferentes perspectivas, enriquecem os processos e tornam o ambiente de trabalho mais colaborativo”, afirma Maria Angélica.
Para garantir igualdade de condições, a empresa fez adaptações nos processos e sistemas internos. Foram criados protocolos visuais, sinalizações específicas e ajustes nos canais de comunicação.
“Os motoristas surdos demonstram ser extremamente atentos, cuidadosos e comprometidos com cada etapa do trabalho. O desempenho tem sido excelente tanto em segurança quanto em produtividade, mostrando que a inclusão não compromete resultados, pelo contrário, fortalece a operação”, afirma a diretora.
A experiência, segundo ela, trouxe aprendizados que foram além do ambiente profissional. A inclusão transformou a cultura da empresa. “Quando damos as condições certas, a deficiência deixa de ser uma barreira e dá lugar ao potencial e ao talento. Como diz uma grande amiga, não somos deficientes, somos eficientes” compartilha.
Questionada sobre os principais obstáculos para ampliar a presença de motoristas surdos no setor, Maria Angélica aponta a resistência cultural como o maior desafio. “Ainda há preconceito e falta de informação sobre a capacidade plena de um motorista surdo. A legislação e a burocracia dos Detrans podem apresentar desafios pontuais, mas são contornáveis. O que realmente precisa mudar é a mentalidade dentro das empresas”, ressalta.
Ela acrescenta que, na prática, o maior esforço ainda recai sobre os próprios profissionais surdos, que precisam provar sua competência e encontrar transportadoras dispostas a enxergar o talento antes da limitação.
Em relação à operação, a executiva explica que a empresa faz análises criteriosas antes de cada trajeto, mas o cuidado é o mesmo aplicado a todos os motoristas. “Segurança é e continuará sendo nossa prioridade. Acreditamos que inclusão responsável é justamente isso tratar todos com equidade, sem abrir mão da segurança e da qualidade que caracterizam a Rodopiro. Pretendemos ampliar o número de contratações de motoristas surdos nos próximos anos”.
Surdos na estrada: motoristas surdos lutam por oportunidades
Daniel Valter, de Santa Catarina, sempre conviveu com caminhão, por conta do pai, que o incentiva desde os oito anos. “Ele sempre disse que eu tinha capacidade de viajar sozinho e me tornar um caminhoneiro”.
Quando Daniel foi tirar a carteira, teve receio de não ser aprovado no exame médico, mas passou no psicotécnico sem problemas. Primeiro tirou a categoria C e depois tentou a E. Hoje trabalha como caminhoneiro e viaja por Porto Alegre, Santa Catarina, Paraná, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. A estrada é meu lugar.
“O principal desafio é a comunicação. Mas, eu escrevo mensagens quando preciso, e quando tenho dificuldade, uso mímica ou falo um pouco com a voz. Não sei libras, então adapto. Uma vez, fui parado pela polícia porque meu caminhão tinha uma luz de LED vermelha atrás. Expliquei por gestos, entreguei os documentos, e resolveram pedindo para eu retirar a luz”, conta.
Para Daniel, ser surdo na estrada exige força, luta e muito aprendizado. “Nós somos visuais, buscamos entender pelo olhar, pela observação. Eu acredito que, com mais apoio e compreensão, poderemos continuar evoluindo e conquistando espaço no transporte.”
William André de Santana, tem 27 anos e é habilitado na categoria D. Seu maior sonho é trabalhar como motorista, viajar pelo Brasil e sentir a liberdade da estrada. “Eu quero ter pertencimento, escolher o caminhão que vou dirigir e poder construir minha vida dentro da profissão”.
Há 28 anos ele trabalha como sepultador no mesmo local e já sinalizou o desejo de dirigir o caminhão da empresa carregado de terra e atender outros cemitérios. Estou nessa função há 28 anos no mesmo cemitério. Sempre sinalizou o desejo de dirigir caminhão, de carregar terra e atender outros cemitérios com os veículos da própria empresa. “Desde que tirei a minha CNH eu tento essa vaga. Já enviei meus documentos para o RH, na esperança de ser aproveitado como motorista. Mas já se passaram dois anos e nunca me deram resposta”, disse.
Outros colegas, conforme explica William, com carteira B, conseguiram autorização para dirigir os carros da empresa. Para ele, isso é preconceito. “É como se não acreditassem na minha capacidade de dirigir um caminhão. Eu sei que sou capaz. Tenho fé em Deus e sigo acreditando que vou ter uma oportunidade”, desabafou.
Murilo Souza, também se apaixonou pela profissão logo na infância. O primo e o tio trabalhavam com caminhão. “Ficava encantado com aquela vida. Chegava a me esconder na carroceria para poder acompanhar as viagens, porque não podia entrar na boleia”, lembra.
A surdez é algo hereditário na família de Murilo. A mãe e o avô também eram deficientes auditivos. “Sempre ouvi que surdo não era capaz de dirigir, mas nunca deixei isso me impedir. Quando conquistei minha habilitação e comecei a trabalhar, senti que a responsabilidade era ainda maior. Ser motorista é uma profissão que exige muita seriedade, atenção, coragem e pensamento positivo”, definiu.
Na estrada, Murilo diz se sentir incluído. Faz questão de dizer que não existe diferença. “Meu documento é igual ao deles, minha profissão também. O que muda é apenas a forma de perceber o mundo. Nós, surdos, somos mais visuais, e isso também é uma vantagem”, explicou.
Murilo conta que certa vez em uma viagem para Piracicaba/SP, depois de descarregar ao descer a serra sentiu uma vibração estranha. Ele não ouviu o barulho, mas percebeu pelo caminhão. “Encostei o caminhão e pedi ajuda a um funcionário do pedágio. Expliquei que era surdo, mostrei meus documentos e pedi para ele avisar a empresa. Ele entendeu, ligou para a transportadora, e logo veio o socorro. Essa situação mostra como a percepção visual e o treinamento são fundamentais”, disse.
Atualmente, Murilo trabalha com cargas pesadas como tratores, peças pré-moldadas e até caminhões de corrida em prancha. Viaja por diversos Estados como Paraná, Minas Gerais, Bahia e sonha em conhecer o Brasil. “Entrei na Rodopiro em 2020 e sou muito grato à empresa, porque acreditaram em mim quando muitos diziam que seria impossível um surdo dirigir caminhão, ainda mais em uma transportadora de alto risco. Eles confiaram, me incluíram e me deram essa chance. Meu sonho é ver mais motoristas surdos tendo essa oportunidade”, agradece.






