Quando você olha para um caminhão, o que chama mais atenção? A cabine, o motor, os equipamentos eletrônicos, os sistemas de segurança? Provavelmente, quase ninguém pensa na tecnologia por baixo do caminhão. Porém, é justamente ali que trabalha uma parte importante da tecnologia responsável por manter o veículo em movimento.
Freios, suspensão, eixos, quinta roda, cubos, tambores e outros componentes precisam suportar peso, impacto, vibração e milhares de quilômetros de operação. Além disso, cada peça precisa funcionar de acordo com o restante do conjunto. Afinal, não basta ter um motor eficiente ou uma cabine moderna se o caminhão não consegue frear, manter estabilidade ou permanecer corretamente conectado ao implemento.
Para conhecer esse universo que normalmente fica longe dos olhos do motorista, O Carreteiro visitou, em Caxias do Sul (RS), empresas da vertical de Autopeças da Randoncorp. Durante dois dias, a reportagem acompanhou processos e conheceu soluções desenvolvidas pela Master Freios, JOST, Suspensys e CasterTech.
A visita revelou uma indústria na qual a tecnologia aparece não apenas no produto final, mas também nos processos de desenvolvimento, fabricação, testes, controle de qualidade e reaproveitamento de materiais.
Freios de caminhão
Uma das funções mais críticas de qualquer veículo é parar. Em um caminhão carregado, essa responsabilidade aumenta ainda mais. Por isso, os freios de caminhão estão entre os componentes que exigem maior atenção quando o assunto é segurança.
Na Master Freios, essa trajetória já soma 40 anos. A empresa fornece sistemas de frenagem para veículos comerciais e vem ampliando sua presença no mercado de reposição e em outros mercados internacionais.
Um dos principais movimentos dessa estratégia ocorreu em 2024, com a aquisição da European Braking Systems (EBS), grupo de empresas do Reino Unido com atuação internacional e forte presença no mercado de reposição europeu.
Segundo Bernardo Bregoli Soares, diretor executivo da Master Freios, a aquisição permitiu ampliar o portfólio e reunir conhecimentos desenvolvidos em diferentes mercados. “A gente sempre foi focado no mercado sul-americano, sempre fornecendo para as montadoras aqui dessa região. E agora nós queríamos aumentar essa relevância no mercado de reposição também.”
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A EBS acrescentou cerca de 45 famílias de produtos e 45 mil SKUs ao portfólio, além de uma estrutura internacional de distribuição e fornecedores. A estratégia também ampliou a atuação da Master para diferentes partes do sistema de frenagem. “A Master sempre foi focada no sistema, no mecanismo de freio. Mas a gente quis aumentar essa abrangência para todo o sistema, desde a geração de ar, desde o compressor de ar, passando pelas válvulas, sensores e outros sistemas”, explicou Bernardo.
Na prática, a evolução amplia o olhar sobre o sistema de frenagem, que começa na geração do ar e chega até a aplicação da força necessária para reduzir a velocidade do veículo. A câmara de freio transforma a energia pneumática em movimento mecânico, enquanto o ajustador automático compensa o desgaste da lona.
Engenharia para novas demandas
A integração entre as estruturas brasileira e internacional também trouxe ganhos em desenvolvimento e qualidade. “A gente tem todo um hub de engenharia de freios aqui no Brasil. E lá no Reino Unido a gente também tinha um hub de qualidade. Então, nós fizemos uma junção principalmente do pessoal de qualidade e desenvolvimento de produtos”, afirmou.
Além disso, a chegada de novos fabricantes de caminhões ao Brasil aumenta a importância da oferta local de componentes. Para Bernardo, a capacidade de atender às novas demandas também passa pela competitividade e pela nacionalização. “A gente está credenciado para atender todas as montadoras no maior nível de competitividade possível.”
Enquanto o mercado de veículos comerciais muda, os freios de caminhão também evoluem. A busca por menor peso, novos materiais e maior eficiência deve continuar, inclusive diante do avanço de novas tecnologias de propulsão. “A nossa ideia é que os freios ainda têm uma jornada de otimização. Ainda vamos ter ganhos de materiais, ganhos de eficiência”, destacou Bernardo.
A eletrificação também deverá criar novas interações entre os sistemas de frenagem e os demais componentes do veículo. No entanto, isso não significa uma substituição imediata do freio convencional. A tendência aponta para uma evolução conjunta dos sistemas.
No Brasil, o freio a tambor continua com forte presença nos veículos comerciais, principalmente pelas características das operações e das estradas. Para a Master, ainda existe espaço para melhorar eficiência e desempenho. E a evolução do portfólio deve continuar. Entre os próximos movimentos da empresa está a chegada de uma linha de compressores de ar. “O compressor vai ser o nosso grande ponto de novidade no portfólio”, adiantou Bernardo.
Quinta roda ganha tecnologia
Se os freios precisam transformar o movimento em uma frenagem segura, outro componente tem uma missão igualmente importante: manter o caminhão conectado ao implemento.
É nesse ponto que entra a JOST, especializada em sistemas de acoplamento para veículos comerciais. A quinta roda permanece praticamente invisível durante a viagem, mas faz uma conexão fundamental entre o cavalo mecânico e o semirreboque. Por isso, resistência, precisão e segurança fazem parte dos requisitos desse componente.
Durante a visita, porém, foi possível perceber que a quinta roda também está incorporando tecnologia eletrônica. A JOST Brasil apresentou o E.LOCK, dispositivo antifurto inteligente de quinta roda desenvolvido no Brasil em parceria com a Omnilink. A solução combina o sistema mecânico de acoplamento com tecnologia eletrônica e rastreamento integrado.
Desenvolvido ao longo de dois anos, o E.LOCK busca impedir o desacoplamento não autorizado do conjunto cavalo-carreta e permite bloquear as operações de engate e desengate diretamente na quinta roda. Assim, uma peça tradicional do caminhão passa a incorporar conectividade e recursos de segurança. É um exemplo de como a tecnologia por baixo do caminhão também pode atuar na proteção da operação.
Suspensão vai além do conforto
Quando se fala em suspensão de caminhão, é comum pensar primeiro em conforto. Entretanto, sua função vai muito além disso. Na Suspensys, a reportagem acompanhou como os sistemas de suspensão e eixos participam diretamente da dinâmica do veículo. Esses componentes influenciam a estabilidade, a dirigibilidade e o comportamento do caminhão em diferentes condições.
Por isso, sinais como folgas, desgaste de buchas, problemas em molas e tirantes podem aparecer na condução. Tendência direcional, vibração e desgaste irregular dos pneus, por exemplo, merecem investigação.
A suspensão também participa da segurança durante a frenagem. Afinal, não basta o caminhão conseguir parar. Ele precisa permanecer estável e sob controle durante a frenagem, nas curvas e nas mudanças de direção.
Menos peso, mais eficiência
A busca por componentes mais leves e resistentes também chegou aos eixos. Um exemplo apresentado pela Suspensys é o AXYS4, primeiro produto da nova família AXYS de soluções pneumáticas. O eixo autodirecional foi desenvolvido para combinar resistência estrutural, redução de peso, versatilidade de aplicação e facilidade de manutenção.
A proposta mostra como a engenharia pode trabalhar sobre componentes que muitas vezes passam despercebidos pelo motorista, mas que interferem diretamente na dinâmica e na eficiência do veículo.
Onde o metal vira segurança
Na CasterTech, o caminho da reportagem levou para dentro da fundição e dos sistemas de rodagem. Ali, o metal passa por temperaturas elevadas e diferentes etapas até se transformar em componentes destinados a caminhões e implementos.
Cubos, tambores, discos, suportes e outros componentes precisam suportar peso, impacto, vibração e milhares de quilômetros. Por isso, o cuidado começa muito antes de a peça chegar ao veículo.
Um dos aspectos que mais chamam atenção na operação é o reaproveitamento de materiais. A CasterTech utiliza sucata de ferro como matéria-prima para produzir novos componentes. São cerca de 120 toneladas de ferro utilizadas por dia na fundição.
A empresa também reaproveita a água utilizada no processo industrial. Aproximadamente 20 mil litros de água por dia retornam ao processo, reduzindo a necessidade de captação de novos recursos.
Assim, a sustentabilidade aparece integrada à própria operação industrial. O reaproveitamento de matéria-prima e água acontece ao lado de automação, monitoramento e controle de processos.
Tambor de freio também evolui
A engenharia da CasterTech também trabalha no desenvolvimento de novos produtos. Um exemplo é o TechPlus, novo tambor de freio desenvolvido para veículos comerciais pesados do transporte rodoviário de cargas.
O produto apresenta uma nova configuração e design patenteado, desenvolvido pela engenharia da própria empresa. A proposta é evoluir um componente tradicional do sistema de frenagem, buscando ganhos de desempenho, segurança e eficiência operacional.
O TechPlus mostra que até mesmo componentes presentes há décadas nos caminhões continuam passando por processos de desenvolvimento. A engenharia busca novos materiais, configurações e soluções para atender às exigências da operação.
Tecnologia por baixo do caminhão começa antes da estrada
A visita às quatro empresas revelou um ponto em comum a tecnologia por baixo do caminhão não aparece apenas na peça pronta. Ela começa na engenharia, passa pela escolha dos materiais, entra nos processos de fabricação, nos testes e nos controles de qualidade e termina em um componente preparado para enfrentar as condições da estrada.
Automação, manufatura 4.0, inspeção por imagem, linhas de usinagem e montagem e controles de processo fazem parte dessa estrutura.
Para o motorista, tudo isso pode parecer distante. Afinal, durante a viagem, ele enxerga a cabine, o painel, os espelhos, os pneus e a estrada. Mas, enquanto o caminhão roda, existe um conjunto inteiro trabalhando por baixo dele.










