Todos os anos, cerca de 1,2 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito no mundo. A média global é de 15 mortes para cada 100 mil habitantes. No Brasil, a situação é ainda mais preocupante, são aproximadamente 20 mortes por 100 mil habitantes e cerca de 35 mil vidas perdidas anualmente em ocorrências viárias.
Os números representam, em média, 100 mortes por dia, quatro por hora e uma a cada quinze minutos. Um cenário que reforça a necessidade de ações permanentes voltadas à segurança no trânsito, especialmente no transporte rodoviário de cargas, setor responsável por movimentar grande parte da economia nacional.
Diante desse desafio, programas estruturados de gestão da segurança vêm ganhando espaço entre as transportadoras. Mais do que reduzir acidentes, essas iniciativas ajudam a preservar vidas, melhorar a eficiência operacional e diminuir custos relacionados a manutenção, sinistros e afastamentos.
Zero acidentes: segurança como estratégia
Foi justamente com esse objetivo que nasceu o Desafio Visão Zero Acidentes, uma iniciativa do Programa Volvo de Segurança no Trânsito (PVST). O projeto oferece treinamento, mentoria e acompanhamento técnico às empresas participantes, com base nos requisitos da norma internacional ISO 39001, voltada à gestão da segurança viária.

“Cada vez mais as empresas percebem que segurança está diretamente conectada à redução de fatalidades e também à rentabilidade do negócio. Hoje está muito evidente que salvar vidas e melhorar os resultados financeiros caminham juntos”, afirma.
Ela explica que a pressão por práticas mais responsáveis também vem aumentando em toda a cadeia logística.
“Os embarcadores estão exigindo mais das transportadoras, e essa cobrança se espalha por toda a cadeia. Ao mesmo tempo, os benefícios aparecem para todos, principalmente para a sociedade.”
Ao longo de um ano de trabalho com a segunda turma do programa, composta por nove empresas, foram capacitados 34 profissionais em 128 horas de treinamento, além de mentorias personalizadas para cada transportadora.
Os resultados chamam atenção. As empresas participantes registraram aumento de 39% na maturidade da gestão de segurança viária, crescimento de 49% nos índices de conscientização dos motoristas e redução de 57% dos acidentes graves, incluindo ocorrências fatais ou com vítimas incapacitadas.
Zero acidentes: um compromisso histórico com a segurança

“Nossos fundadores entendiam que veículos transportam pessoas. Por isso, os produtos deveriam ser desenvolvidos pensando na segurança, no conforto e no bem-estar de quem está ao volante”, explica.
Segundo o executivo, a Visão Zero, estabelecida globalmente pela Volvo em 2012, busca eliminar acidentes fatais envolvendo veículos da marca por meio de tecnologia, conscientização e trabalho conjunto com transportadores e motoristas.
“A segurança no trânsito é responsabilidade de todos. Não depende apenas da montadora ou da transportadora. É um esforço coletivo que envolve toda a sociedade.”
Quando a segurança vira cultura
Entre as empresas participantes, os resultados mostram que a segurança deixa de ser apenas uma obrigação para se tornar parte da cultura organizacional.
Na Transportadora Contatto, de São Paulo, o programa contribuiu para uma redução de 100% dos acidentes graves e um aumento de 130% nos indicadores de conscientização. Segundo Marcelo Contatto, um dos proprietários da empresa, praticamente todos os 1.300 motoristas participaram das ações. “Quando falamos de segurança, estamos falando de garantir que o motorista volte para casa. Por isso envolvemos também as famílias. Quando a família participa, o engajamento aumenta muito.”
Além da redução dos acidentes, ele destaca ganhos indiretos. “Quando o motorista dirige de forma mais segura, também reduz consumo de combustível, desgaste do veículo e custos operacionais.”
Na Transparaná, da Bahia, o programa ajudou a eliminar os acidentes graves e fortalecer ainda mais o acompanhamento individual dos motoristas. “Hoje monitoramos o desempenho motorista por motorista. Isso nos permite identificar necessidades de treinamento e agir rapidamente”, explica Guilherme Vedovato, diretor corporativo da empresa.
A companhia também utiliza programas de incentivo que avaliam consumo de combustível, respeito aos limites de velocidade e cumprimento das rotas planejadas.
Tecnologia e engajamento
Na Ibor Transportes, o desafio impulsionou mudanças na forma de abordar os treinamentos. De acordo com o diretor Guilherme Bordin, a empresa integrou a gestão da segurança a um aplicativo interno que mede a performance dos motoristas. “Transformamos parte dos treinamentos em uma experiência mais dinâmica, com vídeos, pontuação e recompensas. Isso gerou maior participação e engajamento.”
A estratégia ajudou a empresa a alcançar uma redução de 33% nos acidentes graves, crescimento de 153% nos indicadores de conscientização e queda de 28% nos acidentes por 100 conjuntos.
Reconhecimento e valorização dos motoristas
Na Pra Frente Brasil, que possui cerca de 900 motoristas e percorre aproximadamente cinco milhões de quilômetros por mês, a segurança já fazia parte da rotina operacional. O programa ajudou a consolidar processos e comprovar resultados. “A tecnologia embarcada ajuda muito, mas o mais difícil continua sendo a conscientização das pessoas”, destaca Jefferson Zini, diretor de operações.
A empresa mantém programas de reconhecimento para premiar motoristas que completam longos períodos sem infrações ou acidentes.
O fator humano continua sendo decisivo
Para o Grupo Tombini, que também alcançou redução total dos acidentes graves durante o período do programa, o segredo está na valorização do motorista. “O ponto de virada não é uma câmera ou uma tecnologia específica. É a forma como a empresa olha para o profissional”, afirma Wilker Lytiry, gestor de SSMAQ do grupo.
Segundo ele, o trabalho começa ainda no recrutamento e segue durante toda a jornada do colaborador, com treinamentos, acompanhamento constante e ações voltadas às famílias. “O respeito à vida é o centro de tudo. Quando conseguimos levar essa mensagem para dentro da casa do motorista, o impacto é muito maior.”
Segurança que gera valor
Os resultados alcançados pelas transportadoras participantes mostram que investir em gestão da segurança vai muito além do cumprimento de normas ou exigências de mercado.A redução dos acidentes representa menos perdas humanas, menos custos operacionais, menor indisponibilidade de veículos e maior eficiência para as empresas.
Mais do que um objetivo corporativo, a busca pelo zero acidente se consolida como um compromisso com a vida, e um caminho cada vez mais estratégico para a sustentabilidade do transporte rodoviário de cargas.
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