A qualidade de um pneu começa muito antes de ele chegar à estrada. A seleção das matérias-primas, a combinação de diferentes compostos de borracha e o controle de cada etapa de fabricação influenciam características como uniformidade, resistência estrutural, durabilidade e desempenho. Na unidade da Dunlop em Fazenda Rio Grande (PR), a fabricante investe em tecnologia e processos de controle de qualidade para desenvolver produtos voltados às diferentes necessidades do mercado, incluindo o transporte rodoviário de cargas.
Um dos diferenciais da fábrica é o sistema de fabricação sem emendas, identificado pela empresa como SUM SYSTEM . A tecnologia aplica pequenas camadas de borracha de forma contínua durante a construção do pneu, eliminando a emenda convencional nessa etapa. Segundo Fábio Torres Klabacher, gerente nacional de vendas e marketing da Dunlop Pneus, o processo contribui para uma estrutura mais uniforme e para um balanceamento mais preciso.
“Essa é a cereja do bolo da Dunlop. Nesse processo de fabricação, pequenas tiras de borracha vão sendo aplicadas até completar o pneu. Como não há a emenda convencional, você evita um ponto de ruptura e consegue uma estrutura mais reforçada, além de um balanceamento mais adequado”, explica o executivo.
A fabricação também exige formulações específicas de borracha, de acordo com as características e a aplicação de cada produto. Um pneu de passeio, por exemplo, pode utilizar mais de 25 compostos diferentes, enquanto os pneus de carga precisam atender às exigências relacionadas à capacidade de suportar peso, às condições de rodagem e à resistência necessária para operações de longa distância.
Carcaça influencia o custo por quilômetro
No transporte de cargas, a qualidade estrutural do pneu tem impacto direto sobre o custo operacional. Isso porque, além da vida útil da banda de rodagem, a possibilidade de reaproveitar a carcaça por meio da recapagem pode ampliar o período de utilização do produto e reduzir a necessidade de novos investimentos.
De acordo com Klabacher, a Dunlop trabalha com talões e laterais reforçados para contribuir com a resistência da estrutura, inclusive diante dos impactos encontrados nas rodovias. As condições das estradas brasileiras, a diversidade de relevos e as variações climáticas tornam a robustez um fator importante para a operação.
“Quando você pega um pneu da Dunlop, percebe diferenciais como o talão e a lateral mais robustos, desenvolvidos para suportar melhor os impactos do dia a dia e favorecer a reforma”, afirma.
O número de recapagens, entretanto, depende das condições de utilização, da manutenção, da profundidade remanescente da banda de rodagem e da inspeção técnica da carcaça. Segundo o executivo, embora duas reformas possam servir como referência média, a empresa já identificou carcaças que passaram por três, quatro ou até cinco recapagens.
Para transportadores e caminhoneiros autônomos, essa possibilidade representa uma oportunidade de diluir o investimento inicial ao longo do tempo. A fabricante também analisa carcaças utilizadas por frotas e acompanha informações de reformadores para avaliar o desempenho dos produtos e identificar oportunidades de redução do custo por quilômetro.
Laboratório reforça o controle de qualidade
Além da tecnologia aplicada à produção, a Dunlop conta com um laboratório de ensaios de pneus na unidade de Fazenda Rio Grande, acreditado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). A estrutura permite realizar avaliações dentro do escopo da acreditação, seguindo métodos técnicos padronizados e normas reconhecidas internacionalmente.
Os ensaios contribuem para avaliar características como resistência ao rolamento, durabilidade e frenagem, além de apoiar o desenvolvimento e a validação dos produtos. Segundo a empresa, os resultados apresentam alinhamento com os de laboratórios de referência global.
“Na Dunlop Pneus, a qualidade é resultado de um trabalho contínuo de pesquisa, desenvolvimento e avaliações técnicas rigorosas. Contar com um laboratório acreditado pelo Inmetro em nossa fábrica nos permite realizar ensaios com alto nível de precisão e confiabilidade”, destaca Klabacher.
Um dos exemplos apresentados pela fabricante é o pneu de passeio ENASAVE EC350+, na medida 205/60R16 92H. Em ensaio de resistência ao rolamento realizado conforme a norma ISO 28580, o modelo registrou resultado 18% inferior ao de um pneu concorrente de mesma medida. Segundo estimativa conceitual divulgada pela Dunlop, essa diferença pode representar potencial de redução de 4,7% no consumo de gasolina e de 150 a 180 quilos nas emissões anuais de CO₂. Os benefícios efetivos, contudo, variam conforme o veículo e as condições de uso.
Em outro teste, realizado pela TMT Engenharia Automotiva em maio de 2024, o ENASAVE EC350+ apresentou desempenho de quilometragem 17,4% superior ao pneu de referência, resultado equivalente a 12.888 quilômetros adicionais na estimativa de vida útil utilizada na avaliação. Embora os resultados sejam de um pneu de passeio, eles exemplificam como ensaios comparativos ajudam a mensurar características técnicas e orientar o desenvolvimento dos produtos.
Rede nas rodovias amplia o atendimento
A atuação da Dunlop também inclui iniciativas voltadas ao suporte de quem está na estrada. Durante a pandemia, a empresa criou um modelo de atendimento por meio de lojas instaladas em contêineres, posicionadas estrategicamente ao longo de rodovias para facilitar o acesso dos caminhoneiros aos pneus e aos serviços de borracharia.
A proposta surgiu diante das dificuldades enfrentadas pelos profissionais do transporte durante as restrições sanitárias. O modelo também buscou preservar a atuação dos borracheiros, que continuaram responsáveis pela prestação dos serviços, enquanto a Dunlop fornecia os pneus.
Segundo Klabacher, a iniciativa começou com duas unidades e foi ampliada gradualmente. Atualmente, a empresa informa contar com 55 lojas nesse formato, distribuídas pelo Brasil.
Mercado exige atenção à produção e aos estoques
Apesar dos investimentos em tecnologia, estrutura industrial e atendimento, a fabricante enfrenta um cenário desafiador no mercado brasileiro. De acordo com Klabacher, as vendas em 2026 estão abaixo das registradas no ano anterior, enquanto a companhia acumula o maior estoque de sua história. Entre os fatores que pressionam o setor, o executivo destaca a entrada de pneus importados.
A fábrica de Fazenda Rio Grande tem capacidade instalada para produzir cerca de 2,2 mil pneus de carga por dia. A unidade recebeu investimentos de R$ 1,1 bilhão, concluídos em 2024, destinados à ampliação da capacidade produtiva de pneus de passeio e de carga.
Nesse contexto, a empresa mantém a operação industrial em três turnos, com funcionamento contínuo, buscando preservar o ritmo de produção e evitar o aumento dos custos unitários. Antes de definir um novo ciclo de investimentos, a prioridade, segundo o executivo, é estabilizar as vendas e ajustar os níveis de estoque à demanda do mercado.
A estratégia combina, portanto, tecnologia de fabricação, resistência estrutural, ensaios técnicos e suporte nas rodovias. Para o segmento de carga, em que o pneu representa um componente relevante do custo operacional, a qualidade não se resume ao desempenho inicial: envolve também a possibilidade de reforma, a confiabilidade durante o uso e o custo acumulado ao longo da vida útil.










