O Brasil está diante de uma oportunidade histórica na transição energética, liderar a descarbonização da mobilidade no mundo. Essa foi a principal mensagem de Luiz Eduardo Luzzi, presidente do Instituto MBC Brasil, em coletiva realizada durante o lançamento do estudo de LCA (Avaliação do Ciclo de Vida) voltado para o transporte e a transição energética no país.
O Instituto MBC Brasil reúne 27 entidades e empresas que representam toda a cadeia automotiva, da produção de biocombustíveis à indústria de veículos e autopeças, passando por tecnologia, academia e trabalhadores. “O MBC é transversal. Temos todos os elos da cadeia, porque descarbonizar exige olhar o setor como um todo”, destacou Luzzi.
Transição energética com realidade brasileira
Para o executivo, discutir descarbonização sem considerar aspectos socioeconômicos é um erro. O instituto defende que a transição deve ser viável, inclusiva e geradora de emprego e renda, e que seja utilizada como vetor para a reindustrialização do país.
“Não adianta termos soluções no papel se o energético não chega na ponta, no usuário final”, afirmou.
Além da questão ambiental, o MBC trabalha para que políticas públicas garantam segurança energética, alimentar e social — pilares essenciais para que o processo seja sustentável.
Brasil tem vantagens que nenhum outro país possui
O estudo realizado pelo Instituto MBC, conduzido pelo LCA Consultores, reforça que o Brasil está em uma posição privilegiada no mundo. Com matriz elétrica mais limpa e renovável do G20, 50 anos de aprendizado em biocombustíveis, domínio tecnológico em etanol, biodiesel, biometano e combustíveis sintéticos e ampla disponibilidade de biomassa e potencial para hidrogênio verde
A história mostra essa expertise. O Proálcool foi lançado em 1975 e, ainda na década de 30, Getúlio Vargas já estabelecia percentual de etanol misturado à gasolina no Brasil. Hoje, conforme explica Luzzi, 83% da frota leve nacional é flex, o que permite um impacto imediato na redução de CO₂.
“Poucos países têm tantas opções para descarbonizar. Precisamos usar isso a nosso favor”, disse Luzzi.
Descarbonização da frota atual é prioridade
Segundo o Instituto, não basta focar apenas nos veículos novos. O Brasil tem 48 milhões de veículos em circulação, muitos deles antigos e mais poluentes. Entre as ações defendidas estão aumentar o uso do etanol nos veículos flex, elevar o percentual de etanol na gasolina, podendo chegar a 35%, ampliar a mistura obrigatória do biodiesel no diesel, incentivar o uso de biometano em veículos pesados e criar políticas eficazes de renovação de frota.
Para Luzzi, apostar em uma única rota tecnológica (como eletrificação total) seria um erro. “Defendemos neutralidade tecnológica. O melhor energético depende da aplicação, da região e da competitividade.”
Transição energética: infraestrutura o maior gargalo
O estudo mostra que o Brasil precisará de investimentos massivos para garantir infraestrutura energética suficiente até 2040.
Hoje existem cerca de 18 mil pontos de recarga para veículos elétricos. Para atingir metas adequadas de descarbonização, serão necessários aproximadamente 830 mil pontos — um crescimento de 45 vezes.
Além disso, a demanda de energia elétrica crescerá fortemente com novas tecnologias, IA e data centers. Além disso, é preciso dobrar a produção de biodiesel e ampliar a oferta de biometano para mobilidade pesada. E a produção de hidrogênio verde ainda é incipiente e precisa atingir 400 mil toneladas/ano.
Protagonismo global e oportunidade para o transporte
Com o avanço dos combustíveis sustentáveis e com programas já estabelecidos o Brasil pode se tornar exportador de tecnologia e de energéticos, incluindo o etanol, HVO e biodiesel avançado, biometano e hidrogênio verde e derivados (como amônia verde e e-fuels). “O mundo está buscando soluções e o Brasil tem todas elas dentro de casa”, destacou Luzzi.
Para o transporte rodoviário de cargas, o recado é claro
O setor de transporte é responsável por 40% das emissões do setor automotivo, e o modal rodoviário é o que mais emite dentro dessa fatia. Por isso, as ações precisam começar por caminhões e ônibus, especialmente com o uso do biometano para rotas de longa distância, biodiesel e HVO para ampliação imediata da redução de CO₂ e renovação de frota via incentivos e marcos regulatórios.
Conforme explica Luzzi, enquanto muitos países ainda discutem qual caminho seguir, o Brasil já possui alternativas maduras e competitivas.






