Os transportadores autônomos de cargas seguem desempenhando um papel essencial na logística brasileira. Em 2025, o setor registrou um dos maiores volumes de novos cadastros da história recente, reforçando a importância da categoria no abastecimento e na movimentação da economia nacional. Porém, por trás dos números positivos, cresce a preocupação com o futuro da profissão.
Levantamento da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), com base em dados da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), aponta que foram emitidos 51.024 novos RNTRCs (Registro Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas) para transportadores autônomos neste ano. O volume representa o segundo maior número de ingressos dos últimos 21 anos, atrás apenas de 2005, quando cerca de 68 mil profissionais entraram na atividade.
Apesar disso, o perfil dos novos caminhoneiros revela um cenário de baixa renovação geracional. A média de idade dos novos TACs ficou em 42 anos, próxima da média geral da categoria, atualmente em 46 anos. A maior concentração de novos registros está entre profissionais de 35 a 50 anos, com destaque para a faixa entre 38 e 44 anos. Também chama atenção o número significativo de motoristas que ingressam na profissão após os 50 anos.
Segundo a CNTA, esse movimento reforça um padrão já conhecido no setor, muitos profissionais chegam ao transporte autônomo após passarem por outras atividades ou vínculos formais, conseguindo adquirir um caminhão apenas em fases mais avançadas da vida profissional.
Autônomos: presença de jovens é limitada
Enquanto isso, a presença de jovens segue limitada. O estudo mostra retração na participação de profissionais com menos de 25 anos, reflexo direto de obstáculos como o alto custo dos veículos, despesas de manutenção, dificuldade de acesso ao crédito e as próprias condições operacionais da atividade. A combinação desses fatores acaba afastando novos talentos e dificultando a renovação da categoria.
Por outro lado, um dos dados positivos do levantamento está no crescimento da participação feminina. Em 2025, as mulheres representaram 16,3% dos novos registros de TACs, o maior percentual já registrado pela ANTT e acima da média atual da categoria, hoje em 10,7%.
Além do perfil dos profissionais, o estudo também evidencia a força operacional dos autônomos no transporte brasileiro. Os TACs movimentaram 204,6 milhões de toneladas de cargas ao longo do ano, realizando 13,9 milhões de viagens e emitindo 17,8 milhões de MDF-es. O segundo semestre concentrou os maiores volumes transportados, especialmente entre julho e setembro, período marcado pelo aumento da demanda logística.
O agronegócio continua sendo o principal motor dessa movimentação. Soja, milho, fertilizantes, farelo de soja e cimento aparecem entre as cargas mais transportadas pelos autônomos. São Paulo lidera tanto na origem quanto no destino das cargas, seguido por estados como Minas Gerais, Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul e Mato Grosso, reforçando os principais corredores logísticos do País.
No entanto, os desafios estruturais permanecem evidentes. Um dos principais gargalos é a baixa eficiência operacional. Em 2025, os caminhões dos autônomos rodaram cerca de 10,9 bilhões de quilômetros vazios, o equivalente a 35,5% de toda a distância percorrida pela categoria.
Outro ponto crítico é o envelhecimento da frota. A idade média dos caminhões utilizados pelos transportadores autônomos chegou a 19,8 anos. Mais da metade das operações é realizada por veículos com mais de 16 anos de uso, cenário que impacta diretamente os custos operacionais, o consumo de combustível, a produtividade e também as emissões de poluentes.
A operação dos autônomos gerou uma estimativa de 6,29 milhões de toneladas de CO₂ equivalente ao longo do ano, reforçando a necessidade de renovação da frota como parte da agenda de eficiência e sustentabilidade do setor.
Durante o lançamento do programa Move Brasil 2, em abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também destacou a necessidade de ampliar o acesso ao crédito para os caminhoneiros autônomos, defendendo maior participação das instituições financeiras no financiamento da renovação da frota.
O contraste entre o crescimento no número de registros e o envelhecimento dos profissionais e veículos mostra que o transporte rodoviário de cargas vive um momento decisivo. Mais do que aumentar o número de caminhoneiros, o desafio agora é garantir condições para atrair uma nova geração e manter a sustentabilidade da atividade nos próximos anos.
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