As condições de trabalho dos caminhoneiros ainda deixam muito a desejar. Para quem passa dias na estrada, encontrar um lugar seguro para descansar, ter acesso a uma boa estrutura, receber uma remuneração justa e contar com mais respeito durante as viagens faz diferença na decisão de permanecer ou não na profissão.
Além disso, a dificuldade para atrair novos motoristas preocupa o setor. Enquanto muitos jovens procuram atividades que permitam ficar mais perto da família e tenham horários mais previsíveis, profissionais experientes também relatam cansaço e falta de perspectivas.
Mas, afinal, o que falta na estrada para melhorar as condições de trabalho dos caminhões e tornar a profissão mais atrativa? Para Samuel Santos Marcelino, 46 anos, de Betim/MG, e há 22 anos na profissão, as longas viagens e a distância da família fazem parte da rotina, mas o descanso continua sendo uma preocupação.
Dormir dentro do caminhão, segundo ele, não significa necessariamente descansar. O motorista continua atento à carga, ao veículo e aos riscos de roubo. “Você não está dormindo dentro da sua casa. A qualquer momento pode chegar alguém, bater no caminhão, arrombar o vidro e roubar”, relata.
Além disso, Samuel chama atenção para quem está começando. Na avaliação dele, a formação do motorista precisa ir além da habilitação. O profissional também precisa aprender a lidar com diferentes cargas, rodovias, condições climáticas, situações de risco e organização da jornada.
Pontos de parada: fatores para melhorar as condições de trabalho dos caminhoneiros
A infraestrutura aparece como uma das principais reclamações dos entrevistados. Para Thiago Silva Figueiredo, 43 anos, de Puxinanã/PA, e há 23 anos na profissão, um posto de combustível não resolve sozinho as necessidades de quem passa horas ao volante. O motorista precisa de estacionamento adequado para o caminhão, banheiro, banho, alimentação e segurança. “Nem toda rodovia tem ponto de parada ou posto com pátio adequado para comportar os caminhões”, afirma.
Como consequência, muitos profissionais acabam parando em acostamentos, canteiros ou nas proximidades de centros de distribuição. Além do risco de acidentes, essa situação deixa o motorista exposto à violência, ao clima e ao estresse. Thiago defende que poder público, concessionárias, empresas e iniciativa privada trabalhem juntos para ampliar a oferta de áreas específicas para caminhões.
Segurança também pesa na rotina

Além disso, Luana destaca a maneira como alguns estabelecimentos e locais de carga e descarga tratam o motorista. “Em muitos lugares, o caminhoneiro não é tratado com respeito e acaba sendo maltratado. Precisamos de mais empatia com quem está na estrada”, ressalta. Para ela, esses são os pontos principais para melhorar as condições de trabalho dos caminhoneiros.
Remuneração pode aumentar a pressão

Na avaliação dele, isso também dificulta o cumprimento dos períodos de descanso previstos para a categoria. “Na teoria, a Lei do Motorista existe. Na prática, as empresas fazem como querem”, afirma. Por isso, Heraldo considera importante fortalecer os mecanismos de representação dos profissionais para que o caminhoneiro tenha apoio quando precisar cobrar seus direitos.
Valorização precisa partir da própria categoria

Ele defende a formação de grupos, cooperativas e entidades mais atuantes para aumentar a força da categoria nas negociações. Ao mesmo tempo, Paulo acredita que os motoristas também precisam rever alguns comportamentos. Deixar lixo em locais de parada ou não respeitar os espaços utilizados durante as viagens, por exemplo, prejudica a imagem da profissão.
Empresas também precisam olhar para o motorista

Com mais de 20 anos de profissão, Márcia Aparecida Florencio Guerreiro, 51 anos, considera que a valorização precisa começar dentro das empresas. “Tem que começar pelas empresas onde trabalhamos. Se a empresa não valoriza o próprio funcionário, os outros vão valorizar muito menos”, destaca.
Márcia também reclama do excesso de burocracia. Apesar da digitalização de muitos processos, o motorista ainda precisa lidar com documentos durante carregamentos e descargas. “Com um celular na mão, muitos desses processos poderiam ser resolvidos de forma on-line. Não precisaria carregar uma montanha de papel”, reclama.
O que pode tornar a profissão mais atrativa?
As respostas dos caminhoneiros mostram que não existe uma única solução. Melhores condições de trabalho dos caminhoneiros dependem de uma combinação de fatores: remuneração adequada, respeito às jornadas, segurança, rodovias em melhores condições, pontos de parada e oportunidades para quem está começando.
Além disso, existe uma questão que não aparece em planilhas ou indicadores. Trata-se do reconhecimento. Afinal, antes de uma mercadoria chegar ao consumidor, alguém precisa percorrer centenas ou milhares de quilômetros para transportá-la. “Todo mundo acha lindo comprar no Mercado Livre, mas por trás daquele produto chegar ao apartamento de alguém existe um caminhoneiro trabalhando”, observa Paulo.
Portanto, se o transporte precisa de novos profissionais para continuar crescendo, também precisa olhar para quem já está na estrada e perguntar: o que é preciso mudar para que o caminhoneiro queira continuar?
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