A saúde mental no ambiente de trabalho ganhou ainda mais relevância com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir os riscos psicossociais entre os fatores que devem ser identificados, avaliados e gerenciados pelas empresas. A fiscalização da nova regra começou em 26 de maio e amplia a responsabilidade das organizações na prevenção de problemas como estresse, ansiedade, depressão e esgotamento emocional.

A mudança ocorre em um cenário de crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os casos aumentaram 134% entre 2022 e 2024, reforçando a necessidade de atenção ao tema dentro das empresas.

No transporte rodoviário de cargas, a discussão ganha peso por causa das características da atividade. Pressão por prazos, jornadas extensas, responsabilidades operacionais e o tempo prolongado longe de casa fazem parte da rotina de muitos profissionais e podem impactar diretamente a saúde emocional.

Saúde Mental: rotina nas estradas amplia riscos

No caso dos caminhoneiros, os fatores de desgaste vão além da operação. A solidão, a insegurança nas estradas, a falta de infraestrutura e a distância da família são apontados como elementos que aumentam o sofrimento psíquico.

Ansiedade, estresse e depressão estão entre os principais problemas que afetam esses profissionais. Muitas vezes, os sintomas passam despercebidos ou são confundidos com cansaço e desânimo, o que dificulta a busca por ajuda.

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Além do impacto individual, o comprometimento da saúde mental também interfere na segurança viária. Sintomas como insônia, falta de concentração, irritabilidade e desmotivação podem elevar o risco de acidentes.Segundo a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET), doenças orgânicas e mentais estão entre os fatores que contribuem para acidentes fatais no trânsito.

O que muda para as empresas

Com a atualização da NR-1, fatores como metas excessivas, sobrecarga de trabalho, ausência de suporte, conflitos interpessoais e assédio moral passam a integrar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Na prática, isso significa que as transportadoras precisam mapear esses riscos, criar canais de escuta, capacitar lideranças e desenvolver ações preventivas.

Para Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas no Estado do Paraná (SETCEPAR), a mudança representa um avanço importante para o setor. Segundo Vivian Nunes, coordenadora de recursos humanos da entidade, o transporte já convive com condições que exigem atenção constante.

“O transporte rodoviário já convive com fatores como pressão por prazos, jornadas extensas e alta responsabilidade operacional. A NR-1 amplia o olhar para aspectos que impactam diretamente a saúde mental e o desempenho dos profissionais”, afirma.

O sindicato vem orientando empresas na adequação à norma e desenvolvendo projetos específicos de avaliação e gestão de riscos psicossociais.

Um dos casos acompanhados foi o da Copadubo, cooperativa que estruturou seu processo de adaptação com apoio técnico. O trabalho incluiu diagnóstico organizacional, escuta de colaboradores e construção de plano de ação.

Segundo Layane Silva, analista de recursos humanos da empresa, um dos principais desafios foi quebrar a resistência inicial em torno do tema.

“Por se tratar de um assunto sensível, o engajamento das equipes exigiu um trabalho de conscientização para mostrar que o foco estava no bem-estar coletivo e individual.”

Gestão preventiva

No interior de São Paulo, o Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Campinas e Região (SINDICAMP) também tem reforçado a importância da adaptação à nova norma. Para a presidente da entidade, Rafaela Cozar, a saúde mental precisa deixar de ser tratada apenas de forma reativa. “A NR-1 traz uma mudança importante de visão. Saúde mental faz parte da gestão de riscos e da segurança do trabalho. No transporte de cargas, cuidar das pessoas também significa cuidar da operação e da segurança nas estradas”, afirma.

Segundo ela, o principal desafio será transformar a adequação legal em prática cotidiana.

Atenção aos sinais

Especialistas alertam que a identificação precoce é essencial. Entre os sinais de alerta estão insônia, irritabilidade, ansiedade, perda de interesse por atividades, alterações no apetite, dificuldade de concentração e sensação constante de esgotamento. No setor de transporte, ainda há resistência em falar sobre o tema. O preconceito e a falta de informação fazem com que muitos motoristas ignorem sintomas ou adiem a busca por tratamento.

A nova NR-1 coloca a saúde mental no centro da gestão ocupacional e reforça uma mudança importante para o transporte rodoviário: prevenir o adoecimento emocional também é uma medida de segurança, produtividade e sustentabilidade para as empresas.