Biometano no transporte pesado já deixou de ser uma promessa e começa a ocupar espaço nas operações de transportadoras, indústrias e embarcadores. Durante a primeira etapa do CIBiogás Conecta Transporte Pesado, especialistas, distribuidoras de gás, concessionárias e empresas do setor mostraram que o combustível renovável reúne condições para reduzir as emissões do transporte rodoviário. No entanto, o crescimento do biometano ainda depende da expansão da infraestrutura de abastecimento, de políticas públicas e da renovação da frota.
Transporte rodoviário concentra maior potencial
O transporte rodoviário concentra a maior oportunidade para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no Brasil. Segundo dados apresentados pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), o modal responde por cerca de 93% das emissões do setor de transportes, reflexo da forte dependência das rodovias para movimentar cargas e passageiros.
Além disso, a idade elevada da frota reforça esse cenário. Mais da metade dos caminhões em circulação possui mais de 15 anos de uso, enquanto apenas uma pequena parcela conta com tecnologias mais modernas de controle de emissões. Por isso, especialistas defendem que a renovação da frota caminhe junto com a adoção do biometano.
Entre os principais diferenciais do combustível estão autonomia superior a 1.200 quilômetros, abastecimento em cerca de 20 minutos, redução de até 90% das emissões de CO₂ ao longo do ciclo de vida, menor nível de ruído e custos operacionais competitivos em comparação ao diesel, dependendo da aplicação.
Ainda assim, o setor considera essencial ampliar a oferta do combustível, expandir os pontos de abastecimento e criar mecanismos que reduzam o custo de aquisição dos caminhões movidos a gás.
Biometano amplia alcance da logística
A expansão da distribuição também entrou em pauta durante o evento. A Ultragaz apresentou soluções para transportar biometano comprimido até regiões sem acesso à malha de gasodutos, ampliando o fornecimento para transportadoras e indústrias.
Segundo a empresa, aproximadamente 200 caminhões já realizam o transporte do combustível. Além disso, operações desenvolvidas com fabricantes e grandes embarcadores mostram que a substituição gradual do diesel pelo biometano já acontece em parte da cadeia logística.
Outro benefício destacado foi a maior previsibilidade dos custos operacionais, já que o diesel sofre influência direta das oscilações do mercado internacional.
Biometano no transporte pesado: infraestrutura ainda limita crescimento
Apesar da evolução do mercado, a infraestrutura continua sendo um dos principais desafios para expandir o biometano no transporte pesado.
No Paraná, a Compagas apresentou projetos que integram redes locais de distribuição ao transporte de gás comprimido, permitindo levar o combustível para municípios que ainda não possuem gasodutos. A estratégia inclui corredores de abastecimento voltados ao transporte rodoviário em diferentes regiões do estado.
No interior de São Paulo, a Necta destacou o potencial do setor sucroenergético para ampliar a produção de biometano. A concessionária informou que já recebeu propostas para conectar novas plantas produtoras e trabalha na criação de polos capazes de abastecer corredores logísticos destinados aos veículos pesados.
Para a empresa, o avanço desse mercado depende da integração entre produtores de combustível, distribuidoras, transportadoras, embarcadores e fabricantes de caminhões.
Setor sucroenergético amplia investimentos
A Copersucar também apresentou os investimentos realizados para aumentar a produção de biometano.
Hoje, duas usinas do grupo já produzem o combustível, mas o planejamento prevê expandir a operação para todas as unidades ao longo da próxima década. O potencial estimado supera 2 milhões de metros cúbicos por dia.
A empresa ainda informou que opera a maior frota brasileira de caminhões movidos a biometano no transporte de açúcar, com mais de 70 veículos em atividade. Segundo a companhia, essa operação já substituiu milhões de litros de diesel e reduziu significativamente as emissões de carbono.
Além dos investimentos na produção, a empresa defendeu incentivos para acelerar a renovação da frota e aumentar a competitividade dos caminhões movidos a gás, incluindo políticas relacionadas aos pedágios.
Biometano entra em nova fase
O encontro mostrou que o biometano vive uma nova etapa no transporte pesado brasileiro. Se antes predominavam projetos-piloto, agora o combustível começa a ganhar escala comercial e demonstra capacidade para atender às exigências da operação rodoviária em autonomia, produtividade e tempo de abastecimento.
Mesmo assim, especialistas reforçam que o crescimento do biometano depende da expansão dos corredores de abastecimento, do aumento da oferta do combustível e da criação de políticas públicas que estimulem a renovação da frota.
Com esses avanços, o setor acredita que o biometano pode se consolidar como uma das principais alternativas para acelerar a descarbonização do transporte rodoviário de cargas no Brasil.
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