Durante anos, o discurso sobre a falta de motoristas no transporte rodoviário de cargas se repetiu quase como um mantra. Mas, na prática, o problema vai muito além da escassez de mão de obra. Falta, sobretudo, valorização, escuta e estrutura. Em um setor marcado por longas jornadas, solidão na estrada e pouca infraestrutura, algumas transportadoras começam a mostrar que cuidar de quem está ao volante faz toda a diferença, tanto para reter profissionais quanto para atrair novos talentos e reduzir riscos operacionais.

É o caso da Transportadora Buzin e da Transjordano, empresas que, cada uma à sua maneira, colocaram o motorista no centro da estratégia e colhem resultados concretos em engajamento, segurança e estabilidade das euipes.

Falta de motorista: respeito como estratégia de retenção

Na Transportadora Buzin, empresa gaúcha que ganhou visibilidade pela frota personalizada, a reputação foi construída, principalmente, a partir de uma gestão voltada ao bem-estar, à segurança e ao desenvolvimento humano dos motoristas.

falta de motorista “Não é falta de motorista. É falta das empresas entenderem o que o motorista realmente precisa”, afirma Leonardo Buzin, CEO da transportadora. “Em muitos lugares, ele é tratado como ‘só o cara que dirige o caminhão’. Entregam o veículo e dizem: agora é você e Deus na estrada.”

Para Leonardo, a solidão da profissão e a falta de apoio explicam boa parte da alta rotatividade no setor. “O motorista já passa o dia inteiro sozinho. Quando chega num posto, às vezes é mal atendido. Se ainda não tem suporte da empresa, ele simplesmente não fica.”

Na Buzin, a lógica é inversa. Além de remuneração compatível, a empresa investe em atendimento humanizado, suporte 24 horas e ações simples, mas simbólicas, como confraternizações, premiações internas e atenção às condições de parada na estrada.

“Muitas vezes, por causa de dois ou três centavos no diesel, mandam o motorista para um posto sem estrutura nenhuma. Aqui, a gente prioriza onde ele vai comer bem, tomar um banho quente e descansar com dignidade”, destaca o CEO.

O resultado aparece no dia a dia: a empresa não sofre com falta de motoristas e mantém um time estável, alinhado aos valores da operação.

Pertencimento vai além do caminhão bonito

Os caminhões personalizados da Buzin chamam atenção nas estradas e nas redes sociais, mas Leonardo faz questão de deixar claro que isso é apenas parte do processo. “A personalização ajuda, claro. Dá orgulho, pertencimento. Mas isso sozinho não resolve. Não adianta dar um caminhão bonito e esquecer o cara quando ele quebra na estrada.”

Segundo ele, o sentimento de pertencimento nasce do conjunto: respeito, suporte, clareza de papéis e confiança. “A função do motorista é transportar. O resto é com o escritório. Cada um tem sua atribuição. Motorista não pode ser largado para resolver tudo sozinho.”

Da boleia à gestão: carreira possível no transporte

A valorização também se traduz em oportunidades reais de crescimento. A história de Marcelo de Camargo, hoje gerente de operações da empresa, é um exemplo disso. Ele entrou na Buzin em 2012 como manobrista, tornou-se motorista de carreira, passou pela área de instrução e telemetria e, aos poucos, migrou para cargos de liderança.

falta de motorista Marcelo de Camargo“Fiquei quase nove anos na estrada. Depois tive a oportunidade de implantar a telemetria, criar processos e mostrar resultado. Hoje sou responsável por todas as operações da empresa”, conta.

falta de motorista Marcelo de Camargo2Mais do que um caso isolado, Marcelo explica que outros motoristas seguiram caminhos semelhantes. “Hoje, o setor de telemetria é formado só por ex-motoristas. São pessoas que conhecem a estrada, o caminhão, o cliente e a dor de quem está rodando.”

Essa vivência muda completamente a relação com quem está na boleia. “Para a gente, ouvir o motorista é essencial. Às vezes não é dinheiro. Às vezes ele só precisa ser ouvido.”

 

Escuta ativa e segurança caminham juntas

Na prática, isso significa ter gente disponível para atender o motorista a qualquer hora. “Se ele liga às duas da manhã, alguém atende. Pode ser o instrutor, o gerente ou o próprio Leonardo. Aqui não existe hierarquia rígida quando o assunto é o motorista”, afirma Marcelo.

A empresa também investe em tecnologia, como telemetria e câmeras, sempre com foco em segurança — e não em punição. “No começo existe resistência. Mas quando o motorista entende que a câmera protege ele e ajuda a provar que muitos acidentes não são culpa dele, a cultura muda”, explica Leonardo.

Bem-estar como parte da gestão

Na Transjordano, a valorização do motorista ganhou um olhar ainda mais amplo ao incorporar saúde mental e bem-estar à rotina da operação. Desde 2021, a empresa mantém um programa estruturado que inclui práticas de mindfulness, meditação guiada e até yoga adaptada à realidade de quem vive na estrada.

As aulas são on-line e podem ser acompanhadas não apenas pelos motoristas, mas também por familiares. A proposta é ajudar o profissional a reconhecer emoções, lidar com fadiga, estresse e pressão psicológica, fatores diretamente ligados à segurança na condução.

falta de motorista“Quando o motorista aprende a dar nome ao que está sentindo, ele consegue se cuidar melhor e evitar situações de risco”, explica Joyce Bessa, diretora da Transjordano.

Segundo ela, as ações contribuíram para a redução de multas, pequenos incidentes e para a criação de um ambiente mais aberto ao diálogo. A empresa também oferece acompanhamento interno voltado à saúde emocional, criando um espaço seguro para que motoristas falem sobre dificuldades pessoais e profissionais.

“Nosso maior objetivo é que eles voltem para casa em segurança. Caminhão nenhum vale mais do que uma vida”, reforça Joyce.

Dignidade como resposta à falta de motoristas

Tanto na Buzin quanto na Transjordano, a percepção é clara, valorizar o motorista não é apenas uma questão social, mas uma decisão estratégica. Em um setor onde ainda se fala muito em crise de mão de obra, empresas que investem em escuta, bem-estar, carreira e segurança mostram que é possível reter profissionais, reduzir riscos e devolver o orgulho de pertencer à profissão.

Mais do que dirigir caminhões, esses motoristas passam a fazer parte de um projeto, e é justamente isso que os faz ficar.

Leia mais

Caminhoneiro 2026: entre desafios e esperança

Nova regra do frete minimo