Caminhoneiro bloqueado por gerenciadoras de risco tem se tornado uma preocupação crescente dentro do setor de  transporte rodoviário de cargas. Sem explicações claras, muitos profissionais são impedidos de carregar, perdem oportunidades de frete e, em casos mais graves, chegam a ficar semanas ou meses sem conseguir trabalhar.

Mas afinal, o que leva a esse bloqueio? Ele é legal? E o que o motorista pode fazer?

Para esclarecer essas dúvidas, a reportagem do O Carreteiro ouviu o advogado Dr. André Luís Felipe Ilkiu Coelho, especialista em transporte, e caminhoneiros que enfrentaram o problema na prática.

O que leva ao bloqueio nas gerenciadoras de risco

De acordo com o advogado, quando o motorista recebe classificações como “perfil divergente” ou “não aprovado”, isso geralmente está ligado a questões cadastrais ou critérios internos das próprias gerenciadoras. Pode ser falta de documentação, inconsistência de dados ou até uma decisão interna da empresa de não aprovar aquele profissional para o carregamento.

Entre os principais fatores que levam ao bloqueio estão registros de sinistros, boletins de ocorrência, processos criminais, histórico financeiro, tipo de carga e análise de risco. Segundo o especialista, o problema está na forma como essas informações são utilizadas. Existe tanto uma análise objetiva quanto subjetiva, o que pode gerar decisões sem transparência clara para o motorista.

LGPD garante acesso aos dados, mas nem sempre acontece

Um dos pontos mais críticos envolve o direito à informação. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) garante que qualquer cidadão saiba quais dados estão sendo utilizados e possa solicitar correções.

O advogado explica que o motorista tem direito de acessar essas informações, entender os critérios e pedir revisão. Negar esse acesso pode configurar violação de direitos. Na prática, porém, isso nem sempre acontece. Muitas gerenciadoras evitam informar os motivos do bloqueio para não expor seus critérios internos, mas não existe justificativa legal para esse tipo de sigilo.

 

Bloqueio pode ser abusivo e até ilegal

Em alguns casos, o bloqueio pode ser considerado abusivo. Há situações em que o motorista foi vítima de roubo de carga e, mesmo assim, passa a ser classificado como risco, o que representa uma distorção e pode gerar dano moral.

Outro problema é o efeito em cadeia. Uma restrição pode se espalhar entre diferentes gerenciadoras e seguradoras, impedindo o caminhoneiro de trabalhar em várias empresas ao mesmo tempo e ampliando o impacto na atividade profissional.

 Caminhoneiro bloqueado: prejuízos vão além da perda de frete

Os impactos são diretos e, muitas vezes, severos. O bloqueio pode gerar perda de renda imediata, dificuldade de contratação, impossibilidade de trabalhar e danos à reputação profissional. Segundo o advogado, dependendo do caso, é possível buscar indenização por danos morais e materiais, principalmente quando há prejuízo comprovado ou violação de direitos.

 O que o caminhoneiro bloqueado deve fazer?

O primeiro passo é identificar qual gerenciadora realizou o bloqueio, já que muitas vezes essa informação não é repassada pela transportadora. Em seguida, o motorista deve solicitar acesso aos dados utilizados na análise e pedir a correção de possíveis informações incorretas, conforme prevê a LGPD.

Também é fundamental reunir provas, como mensagens, e-mails, protocolos de atendimento e registros de contato. Caso não haja retorno, o caminho pode ser buscar auxílio jurídico. Em muitos casos, notificações extrajudiciais já ajudam a resolver, mas, se necessário, é possível recorrer à Justiça para garantir o direito ao trabalho.

“Fiquei 35 dias sem trabalhar sem saber o motivo”

Aos 54 anos, com 36 anos de estrada, o caminhoneiro Sérgio Marques de Almeida, de Petrópolis (RJ), relata que foi bloqueado sem qualquer explicação. Ele conta que trabalha com cinco gerenciadoras de risco e apenas uma o reprovou, mas isso foi suficiente para deixá-lo 35 dias sem carregar, sem entender o motivo.

Segundo ele, a situação só foi esclarecida após contratar um advogado. “O problema está na falta de transparência. As empresas deixam de contratar porque confiam nas análises, mas o motorista não tem direito de resposta”, explicou.

“Motoristas estão sendo barrados por problemas simples”

Para Edegar Alves da Silva, de 43 anos e 16 anos de profissão, o problema está na falta de critério proporcional. Ele afirma que muitos motoristas experientes estão sendo impedidos de trabalhar por questões simples ou problemas do passado.

Na avaliação dele, se a pessoa já resolveu a situação e está apta, deveria ter uma nova oportunidade. “Não sou contra o gerenciamento de risco, mas acredito que o sistema precisa ser mais justo e transparente”, opina.

“Ser bloqueado na rodovia é um risco enorme”

O caminhoneiro Antônio Marcos dos Santos, de Sorocaba/SP, relata uma situação ainda mais preocupante: o bloqueio durante a viagem. Segundo ele, já foi impedido de seguir viagem em plena rodovia, o que considera uma falta de responsabilidade.

Além do risco, ele destaca a dificuldade de comunicação. “Muitas vezes tentamos contato com a gerenciadora e não conseguimos retorno, o que torna a situação ainda mais estressante, principalmente em locais sem sinal.

Nome negativado também pode impedir o trabalho

O caminhoneiro autônomo Luciano Cândido de Souza, 47 anos de idade e 21 de profissão, viveu uma situação diferente, mas com impacto semelhante. “Perdi o emprego após não conseguir aprovar o seguro da carga por estar com o nome negativado”, explicou.

Segundo ele, isso cria um ciclo difícil. Sem poder trabalhar, não consegue pagar a dívida. Apesar de entender a importância do gerenciamento de risco, principalmente em cargas de alto valor, ele acredita que deveria haver mais análise de cada caso e menos rigidez em situações pontuais.

“Fui acusado de um desvio de carga em um período em que nem trabalhava”

Aos 59 anos, com 38 anos de profissão, o caminhoneiro Gelson José de Souza relata um caso ainda mais grave. Após décadas de carreira sem problemas, foi impedido de trabalhar ao ser acusado de envolvimento em um desvio de carga ocorrido em 2014.

O detalhe é que, nesse período, ele não atuava como caminhoneiro. Entre 2013 e 2016, exerceu mandato como vereador em sua cidade e possui toda a documentação que comprova isso.

Mesmo assim, precisou reunir provas e encaminhar documentos para contestar a acusação. Só depois disso começou a ser procurado com a informação de que houve um equívoco com seu nome.

“Durante esse tempo, acumulei prejuízos. Perdi oportunidades de trabalho e fui  impedido de assumir novas vagas. Agora, busco entender a possibilidade de entrar com ação indenizatória pelos danos sofridos”, desabafou.

Sistema precisa evoluir, dizem motoristas

Apesar das críticas, os caminhoneiros reconhecem a importância do gerenciamento de risco, principalmente para cargas de alto valor. No entanto, todos apontam a necessidade de mudanças.

A principal demanda é por mais transparência, direito de resposta e análise individual dos casos. Também há críticas ao excesso de burocracia em situações simples, que acabam penalizando profissionais sem histórico relevante de risco.

Na visão dos motoristas, o sistema precisa evoluir para não prejudicar quem depende da estrada para viver.

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