A pergunta que começa a ganhar força no setor é se o diesel vai acabar ou ser suficiente para manter o transporte rodoviário brasileiro operando de maneira eficiente. Embora o combustível fóssil ainda seja a principal fonte de energia, especialistas alertam que a crescente demanda, somada à produção nacional limitada e à forte dependência de importação, pode colocar pressão no abastecimento nos próximos anos.
Atualmente, cerca de 30% do diesel consumido no Brasil é importado. Esse cenário aumenta a vulnerabilidade do país diante de crises internacionais, conflitos geopolíticos e oscilações no preço do petróleo. Por isso, cresce a preocupação sobre até quando o diesel será suficiente para atender toda a operação logística nacional.
Diante desse cenário, combustíveis alternativos como biodiesel, biometano, etanol e até SAF (combustível sustentável de aviação) ganham cada vez mais relevância na transição energética.
O diesel vai acabar? Dependência externa preocupa o transporte
Para Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial, os biocombustíveis deixaram de ser apenas uma pauta ambiental e passaram a ser estratégicos para garantir segurança energética ao Brasil.

Além disso, o executivo lembra que episódios recentes mostraram a importância dessa diversificação. Durante momentos de tensão no mercado internacional, como a guerra entre EUA e Irã, o Brasil conseguiu manter o abastecimento justamente por conta da participação do biodiesel e do etanol.
“O país produz cerca de 40 bilhões de litros de etanol e 10 bilhões de litros de biodiesel por ano. Se não tivéssemos essa estrutura, poderíamos enfrentar desabastecimento”, alerta. Ou seja, a discussão sobre se o diesel vai acabar já não é apenas teórica. Hoje, ela envolve segurança energética, logística e economia.
Biodiesel cresce enquanto diesel enfrenta desafios
Atualmente, o Grupo Potencial opera um dos maiores complexos industriais de biodiesel do país, em Lapa/PR, com capacidade para produzir 900 milhões de litros por ano. No entanto, a empresa já investe para ampliar esse volume para 1,7 bilhão de litros anuais. Com isso, a unidade pode se tornar um dos maiores complexos de biocombustíveis do mundo.
Além do biodiesel, a empresa também produz glicerina refinada, subproduto utilizado nas indústrias farmacêutica, cosmética, alimentícia e química. Dessa forma, amplia sua atuação e fortalece a economia circular.
Mas os planos vão além. “Nossa estratégia é ter um portfólio completo de produtos renováveis, como biodiesel, etanol, biometano e, no futuro, SAF”, explica Hammerschmidt.
Se o diesel vai acabar, o SAF e o biometano já entram no radar
Enquanto o biodiesel já tem escala consolidada, o SAF aparece como uma aposta futura. No entanto, segundo Hammerschmidt, o mercado brasileiro ainda não tem volume suficiente para justificar grandes investimentos.
“Uma planta de SAF custa cerca de US$ 1 bilhão. Hoje o mercado ainda é pequeno, mas temos a melhor matéria-prima do mundo para produzir SAF: o etanol.”
Ao mesmo tempo, o Grupo Potencial avança no biometano. A empresa está construindo uma planta de biogás a partir de resíduos industriais, com investimento de R$ 120 milhões e capacidade para produzir 25 mil metros cúbicos por dia.
Além disso, o projeto prevê reaproveitamento de água e redução total de resíduos. “Nosso foco é eficiência, inovação e tecnologia. Tudo o que puder ser reaproveitado será transformado em energia”, destaca.
Caminhões a biodiesel mostram que o diesel pode perder espaço
Na prática, a transição energética já começou no transporte rodoviário. Recentemente, o Grupo Potencial ampliou sua frota com mais 31 caminhões Volvo FH 500 Flex, totalizando 43 veículos preparados para operar com B100 ou qualquer mistura de biodiesel.
Segundo Hammerschmidt, essa tecnologia pode acelerar a redução da dependência do diesel. “É como aconteceu com os carros flex em 2000. No começo havia dúvidas. Depois, o mercado evoluiu. O caminhão a biodiesel é um caminho sem volta.”
Além disso, a nova frota pode reduzir em até 90% as emissões de CO₂ na operação. Outro dado importante é que, a cada 450 litros de biodiesel produzidos, é possível retirar uma tonelada de carbono da atmosfera.
O diesel vai acabar? Agroenergia ganha força como solução
Por outro lado, o avanço dos biocombustíveis também impulsiona o agronegócio. Isso porque a industrialização da soja aumenta o volume de cargas em toda a cadeia logística.
Se o Brasil avançar para uma mistura B20, por exemplo, o transporte de soja, farelo, biodiesel, glicerina, ração e proteína animal crescerá de forma significativa. “Biocombustível e agronegócio caminham juntos. Um fortalece o outro. É isso que chamamos de agroenergia”, resume.
Por fim, Hammerschmidt acredita que o futuro do transporte será construído por múltiplas soluções energéticas com diesel, biodiesel, etanol, biometano, eletrificação, hidrogênio e SAF. “Não precisamos inventar a roda. O biodiesel já está testado há mais de 20 anos no Brasil. Agora precisamos acelerar essa evolução”, finalizou.






