A alta no preço do diesel voltou a tensionar o transporte rodoviário de cargas e reacendeu a discussão sobre uma possível greve dos caminhoneiros em diferentes regiões do país.
Nos últimos dias, o Governo Federal anunciou um conjunto de medidas para tentar conter os impactos do combustível no setor. Entre elas, estão a zeragem das alíquotas de PIS e Cofins sobre o diesel e a concessão de subsídios a produtores e importadores, além de negociações com os estados para reduzir o peso do ICMS.
Ao mesmo tempo, a Agência Nacional de Transportes Terrestres também avançou na atualização do piso mínimo de frete, numa tentativa de recompor a renda dos transportadores.
Greve dos caminhoneiros: diesel mais caro aciona gatilho e reajusta frete
A recente alta do diesel, que chegou à média de R$ 6,89 por litro, segundo dados da ANP, ativou o chamado “gatilho do diesel”, previsto na Lei nº 13.703/2018.
Com isso, a ANTT publicou a Portaria SUROC nº 03/2026, que estabeleceu um reajuste médio de 6,10% no piso mínimo de frete.
Entre os destaques da atualização o aumento de até 7,18% em operações específicas; elevação do coeficiente de deslocamento (CCD), que passou a R$ 6,368 por quilômetro; manutenção do custo de carga e descarga.
Apesar do reajuste, caminhoneiros seguem relatando dificuldade para receber os valores mínimos na prática, o que amplia a insatisfação no setor.
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Governo reforça fiscalização e mira cumprimento da tabela
Diante da pressão crescente, o Ministério dos Transportes e a ANTT anunciaram um pacote de ações voltado ao cumprimento efetivo da política de frete mínimo.
As medidas incluem a ampliação da fiscalização eletrônica com cruzamento de dados fiscais; aumento significativo no número de autuações; penalidades mais duras para empresas e operadores reincidentes; possibilidade de bloqueio de operações por meio do não envio do CIOT (Código Identificador da Operação de Transporte).
A estratégia também prevê a integração de informações com estados, com apoio das secretarias de Fazenda, para identificar irregularidades com maior precisão.
Na prática, o objetivo é reduzir fraudes, coibir concorrência desleal e garantir que o caminhoneiro receba o valor mínimo estabelecido por lei.
Entidades ainda não confirmam greve dos caminhoneiros
Apesar do aumento da insatisfação no setor, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos afirma que, até o momento, não há deliberação formal de greve dos caminhoneiros por parte das entidades filiadas.
Segundo a confederação, o principal motivo de descontentamento entre os caminhoneiros está na dificuldade de repassar os recentes aumentos do diesel para o valor do frete, mesmo com a existência do piso mínimo estabelecido em lei.
A entidade também aponta que o cenário é agravado pela suspensão de ações judiciais que discutem o cumprimento da tabela de frete, no âmbito da ADI 5956, que segue sem decisão definitiva.
Durante reunião com o ministro dos Transportes, Renan Filho, a CNTA destacou pontos que ainda precisam de ajustes nas medidas anunciadas pelo governo. Entre eles, o bloqueio de operações (CIOT) com valores abaixo do piso mínimo e a necessidade de maior agilidade na atualização da tabela, diante das variações rápidas no preço do diesel.
A confederação informou ainda que há grupos de caminhoneiros em algumas regiões aguardando a publicação da medida provisória prometida pelo governo. A avaliação das ações será determinante para os próximos passos.
Caso as medidas atendam às demandas da categoria, a tendência é de arrefecimento do movimento. Por outro lado, se não houver efetividade na garantia do frete mínimo, a possibilidade de paralisação pode voltar a ganhar força.
A CNTA reforça que não convoca greves e que qualquer decisão sobre paralisação cabe exclusivamente aos próprios caminhoneiros, por meio de assembleias. Ainda assim, a entidade afirma que seguirá acompanhando o cenário e apoiará reivindicações consideradas legítimas, sempre dentro da legalidade.
Especialista alerta: pauta para possível greve dos caminhoneiros vai além do combustível
Para o advogado André Luís Felipe Ilkiu Coelho, a greve é um direito constitucional legítimo, mas o momento exige uma reflexão mais ampla sobre as reais demandas dos caminhoneiros.
Segundo ele, embora o aumento do diesel tenha impacto direto nos custos e na viabilidade da atividade, limitar a discussão apenas ao combustível pode simplificar um problema estrutural.
“O diesel pesa, sem dúvida, mas não é o único fator que afeta o caminhoneiro. Existem questões importantes que acabam ficando fora do debate”, avalia.
Entre os pontos citados pelo especialista estão a dificuldade de garantir fretes com valores justos; a falta de estrutura para descanso nas rodovias; cumprimento da jornada de trabalho; saúde e segurança dos motoristas e práticas consideradas abusivas por parte de gerenciadoras de risco.
Ele também chama atenção para casos em que profissionais são impedidos de trabalhar com base em critérios subjetivos, o que pode ferir direitos fundamentais.
Pressão aumenta, mas cenário ainda é indefinido
O atual momento é de pressão crescente sobre o setor, impulsionado principalmente pelo custo do diesel e pela dificuldade de repasse desse aumento ao frete.
Enquanto o governo tenta responder com medidas fiscais e reforço na fiscalização, a categoria segue dividida sobre a efetividade dessas ações.
Diante disso, a possibilidade de paralisação ainda existe, mas depende das decisões que serão tomadas pelas entidades nos próximos dias.
Mais do que o preço do combustível, o debate atual escancara um desafio maior: equilibrar custos, garantir renda ao caminhoneiro e dar mais previsibilidade a uma atividade essencial para a economia brasileira.






