A participação de mulheres no transporte de cargas é uma das principais transformações do setor nos últimos anos. Se antes a profissão era quase exclusivamente masculina, hoje cresce o número de mulheres em diferentes funções, desde a gestão administrativa até a condução de caminhões pesados.

Crescimento da presença feminina no TRC

De acordo com o Índice de Equidade no TRC 2023-2024, realizado pelo Instituto Paulista do Transporte de Carga (IPTC), as mulheres já representam 26% da força de trabalho nas empresas do setor.

Mesmo assim, a participação em áreas estratégicas ainda é reduzida: apenas 3% das motoristas são mulheres, mesma proporção observada em cargos de liderança.

O estudo também mostra que:

  • 81% das empresas têm estratégias para aumentar a contratação de mulheres;

  • 63% divulgam planos de ação para ampliar a presença feminina em cargos de liderança;

  • 87% contrataram líderes mulheres no último ano;

  • 90% afirmam que o gênero não influencia o processo seletivo.

Esses dados revelam que o movimento de inclusão já está em curso.

Inclusão feminina: programas e iniciativas

Um dos destaques é o programa Vez & Voz, do Setecesp, que em 2025 completa cinco anos. A iniciativa promove a conexão entre transportadoras, lideranças e instituições para estimular empresas a criarem infraestrutura adequada para receber mulheres.

O programa agora lança um projeto de empregabilidade, em parceria com a ONG Nações Valquírias, para conectar mulheres em situação de vulnerabilidade social com empresas de transporte dispostas a oferecer a primeira oportunidade de trabalho.

Para Ana Carolina Jarrouge, presidente executiva do Setcesp, o avanço é cultural. “Mais do que números, o importante é criar condições para que as mulheres permaneçam e cresçam na profissão. Não adianta atrair se o ambiente não for favorável. É essencial que elas se sintam acolhidas, respeitadas e capacitadas.”

Mulheres no transporte: o avanço das caminhoneiras no Brasil

Na estrada, o crescimento também é nítido. Dados da ANTT mostram que já são 61.221 mulheres caminhoneiras autônomas com RNTRC ativo, o equivalente a 10,7% do total de registros. Em 2014, eram apenas 1.404.

Outro dado importante é o aumento da procura por cursos de formação de motoristas. A Fabet já capacitou mais de 600 mulheres para conduzir veículos pesados, incluindo carretas biarticuladas, operações off-road e até projetos internacionais no Mercosul.

Segundo Salete Marisa Argenton, gerente geral da Fabet. “No início, a inclusão feminina era vista como ação de marketing. Hoje, o que fala mais alto são os resultados: menor índice de acidentes, direção mais econômica e maior cuidado com os veículos.”

Grandes empresas apoiam a causa

Marcas como a Mercedes-Benz também investem em inclusão feminina. O movimento A Voz Delas, criado há seis anos, e a campanha Na Direção dos Seus Sonhos foram fundamentais para dar visibilidade à presença das mulheres no transporte.“Sabemos que as mulheres são mais prudentes, organizadas e cuidadosas. Elas já ocupam espaço em diversas funções, mas ainda há muito para crescer. O setor só tem a ganhar com essa participação”, destaca a executiva Ebru Semizer, gerente sênior de Peças e Serviços da Mercedes-Benz do Brasil.

Mulheres no transporte: desafios que ainda precisam ser superados

Apesar dos avanços, ainda existem barreiras no setor de transporte:

  • Machismo e preconceito ainda são realidade;

  • Falta de infraestrutura em pontos de parada e rodovias dificulta a rotina das caminhoneiras;

  • Muitas mulheres têm a capacidade profissional subestimada.

Uma pesquisa da CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos), em 2023, revelou que 87% das caminhoneiras já tiveram sua competência colocada em dúvida.

Mulheres no transporte: histórias que inspiram

O exemplo da transportadora Rota do Sol, que conta com 10 motoristas mulheres em uma frota de 122 caminhões, mostra como o setor está mudando. “No passado havia preconceito, mas hoje vemos que as mulheres são competentes, cuidadosas e responsáveis. As portas estão abertas para recebê-las”, afirma o presidente da empresa, Milton Inácio dos Santos.

Entre as colaboradoras da empresa está Cristina Ribeiro, 41 anos, caminhoneira há 15 anos. Ela lembra que enfrentou muito preconceito no início, mas hoje se sente realizada. “Apesar das dificuldades, não desisti. Fiz cursos, treinamentos e conquistei meu espaço. Hoje me sinto feliz e acolhida no setor.”

O futuro das mulheres no transporte de cargas

Para os próximos anos, especialistas acreditam que veremos mais mulheres em cargos de liderança, gestão de frotas e manutenção, além da ampliação da participação como motoristas. “Se queremos mudanças estruturais, precisamos de mais vozes femininas em entidades de classe e federações. A participação das mulheres é fundamental para o futuro do transporte”, disse Jarrouge.

A presença feminina no transporte rodoviário de cargas está crescendo e transformando o setor. Apesar dos desafios, cada vez mais mulheres ocupam funções estratégicas, contribuem com sua competência e provam que têm papel essencial na logística brasileira.

Com apoio de empresas, instituições e políticas públicas, o futuro aponta para um transporte mais inclusivo, diverso e eficiente.

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