Dirigir caminhão é um sonho para muitos brasileiros, e não é diferente entre os motoristas surdos. Apesar de a legislação permitir que obtenham habilitação nas categorias profissionais, motoristas relatam que ainda encontram barreiras, preconceito e falta de apoio tanto nas empresas quanto em órgãos públicos.
Raquel Moreno é idealizadora do projeto Caminhoneiros Surdos do Brasil, que tem o objetivo de incluir motoristas surdos no mercado de trabalho. Hoje a lei já garante esse direito, e existe um projeto de lei em tramitação no Senado (PL 2634/21) para ampliar ainda mais essa inclusão. O texto já passou por algumas comissões, mas está parado.
A legislação exige que o candidato tenha, no seu melhor ouvido, no máximo 40 decibéis de perda auditiva. Ele pode, por exemplo, ser surdo profundo de um lado e ter até 40 dB de audição no outro. O uso de aparelho auditivo é obrigatório. Portanto, mesmo os motorista com 70 dB de perda pode ser habilitado se, com o aparelho, atingir os 40 dB exigidos.

O maior obstáculo, segundo Raquel, está nos Detrans e em algumas entidades que não apoiam essa causa. Muitas vezes o candidato passa em todos os exames, mas não é aprovado por falta de preparo ou até má vontade. Tem surdo que não consegue sequer passar da recepção por não haver intérprete. “Muitas vezes eu mesma faço videochamadas para intermediar a comunicação entre o médico e o candidato”, desabafa.
Motoristas surdos: preconceito e falta de informação ainda são as principais dificuldades
Assim como Raquel, o jovem Murilo Ferreira também sente que ainda precisa vencer a barreira do preconceito. “Meu sonho é ser motorista de caminhão. Eu estudei, tirei a carteira, mas quando chego para procurar emprego, muitas vezes não acreditam que eu posso dirigir. Não é falta de capacidade, é falta de confiança das pessoas”, relata.


Para Daniel, a experiência mostra que ainda falta preparo das instituições para lidar com motoristas surdos.
“Ser surdo na estrada exige força, luta e muito aprendizado. Nós somos visuais, buscamos entender pelo olhar. Com mais apoio e compreensão, podemos continuar evoluindo e conquistando espaço no transporte”, reforça.
As histórias de Raquel, Murilo, William e Daniel revelam um cenário de persistência diante das dificuldades. Apesar das conquistas individuais, o que todos têm em comum é a busca por pertencimento e reconhecimento. O sonho de estar ao volante não depende apenas da habilitação em carteira, mas de uma mudança cultural no setor de transportes para que motoristas surdos tenham, de fato, acesso às mesmas oportunidades.
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Caminhoneiros do Brasil: projeto valoriza a profissão






