A presença de mulheres no transporte rodoviário de cargas continua sendo um dos grandes desafios estruturais do setor no Brasil. Embora a atividade tenha passado por transformações importantes em tecnologia, segurança e gestão, a participação das mulheres na condução de caminhões ainda é bastante limitada.
Dados administrativos da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) ajudam a compreender esse cenário. Entre 2021 e 2025, houve crescimento de aproximadamente 11,5% no número de mulheres habilitadas na categoria B, voltada principalmente à mobilidade pessoal. Entretanto, nas categorias profissionais utilizadas no transporte (C, D e E) o movimento é inverso: no mesmo período houve redução de cerca de 6,9% no total de mulheres nessas categorias.
A categoria C, que normalmente representa o primeiro passo para a carreira no transporte de cargas, registrou queda de aproximadamente 22% na presença feminina. Já na categoria E, que habilita a condução de combinações de veículos como carretas, as mulheres representam apenas cerca de 1,2% das habilitações.
Para Salete Marisa Argenton, gerente geral da Fabet, esse cenário revela que o problema não está apenas no acesso à habilitação, mas principalmente na dificuldade de transformar a habilitação em carreira.
Segundo ela, existem lacunas importantes entre a formação inicial e a entrada efetiva das mulheres no mercado de trabalho. “Um dos principais obstáculos enfrentados pelas mulheres é justamente a dificuldade de acesso à primeira oportunidade profissional, muitas vezes por falta de experiência e de formação técnica especializada”, afirma.
Barreiras ainda presentes no setor
Os desafios da profissão relacionados à infraestrutura rodoviária, como pontos de parada seguros, banheiros adequados e ambientes mais acolhedores, são frequentemente apontados como fatores que dificultam a presença feminina nas estradas.
No entanto, na avaliação da Salete, as barreiras não se limitam à estrutura das rodovias. “As principais dificuldades de inclusão das mulheres muitas vezes estão dentro das próprias empresas, em processos falhos de recrutamento, seleção, contratação, integração, desenvolvimento e retenção desse capital humano”, explica.
Segundo ela, falhas nesses processos acabam gerando custos, ineficiência operacional e dificultam a consolidação de uma política real de diversidade. “Incluir mulheres motoristas nas operações de transporte ainda representa uma quebra de paradigmas. O setor é majoritariamente masculino e, em muitos casos, ainda há resistência e lideranças despreparadas para lidar com essa mudança”, acrescenta.
Formação profissional como caminho para mais mulheres no transporte rodoviário
Foi justamente com o objetivo de reduzir essas barreiras que a Fabet desenvolveu, em São Paulo, um programa estruturado de formação de mulheres para o transporte rodoviário de cargas.
A iniciativa, criada em 2021, busca preparar novas motoristas com capacitação técnica e comportamental para atuação profissional. “Criamos um programa focado na formação de mulheres para o transporte rodoviário de cargas, oferecendo capacitação em segurança viária, direção profissional, percepção de risco e desenvolvimento comportamental”, explica Salete.
A proposta é justamente criar uma ponte entre a habilitação e a carreira, reduzindo as barreiras de entrada no setor.
Escassez de mulheres no transporte rodoviário abre oportunidade
Ampliar a presença feminina também é estratégico para o próprio setor de transporte.
O transporte rodoviário de cargas enfrenta escassez de motoristas profissionais em diversas regiões do País, especialmente nas operações de longa distância.
Nesse contexto, incentivar a entrada de mulheres representa uma oportunidade concreta de ampliar a formação de mão de obra e contribuir para a renovação da força de trabalho.
Além disso, a diversidade tem impacto positivo no ambiente das empresas.
“Experiências em diferentes empresas mostram que equipes mais diversas contribuem para ambientes mais profissionais, colaborativos e respeitosos, além de fortalecer práticas de segurança e responsabilidade operacional”, destaca Salete.
Estrutura para garantir permanência
Para que a presença feminina avance de forma consistente, especialistas defendem que a inclusão precisa vir acompanhada de políticas estruturadas dentro das empresas.
Segundo Salete Argenton, algumas iniciativas são fundamentais nesse processo. “É essencial fortalecer parcerias entre empresas e centros de formação especializados, construir trilhas de carreira e garantir processos de integração técnica eficientes”, afirma.
Outro ponto importante é o acompanhamento das novas motoristas no início da carreira.
“O apoio de um motorista padrinho nas primeiras viagens e uma liderança realmente engajada fazem toda a diferença para garantir segurança, confiança e permanência na profissão.”
Um caminho que precisa ser ampliado
Apesar dos desafios, a executiva acredita que o interesse das mulheres pelo transporte existe, e pode crescer rapidamente se houver estrutura adequada.
“Quando há formação estruturada, apoio institucional e oportunidades concretas, muitas mulheres estão prontas para assumir o volante e construir uma carreira no transporte rodoviário de cargas.”
Para ela, o desafio agora é ampliar essas iniciativas e criar condições para que cada vez mais mulheres enxerguem o transporte como uma profissão possível, segura e promissora.
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