Na últimas semanas notícias sobre o conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos e Irã têm gerado preocupação no mercado internacional de petróleo. O principal motivo é o possível reflexo para o transporte rodoviário de cargas no Brasil. Especialistas ouvidos por O Carreteiro apontam que o principal impacto tende a ocorrer no preço do diesel, combustível que representa a maior parcela dos custos operacionais do setor.
Embora o risco imediato de desabastecimento seja considerado baixo, oscilações no preço do barril podem afetar o valor do frete, pressionar as margens das transportadoras e influenciar decisões de investimento no mercado de caminhões.
Diesel pode subir nas próximas semanas
De acordo com Gregori Boschi, sócio da Boschi Inteligência de Mercado, o impacto do conflito no Oriente Médio sobre os combustíveis no Brasil dependerá de fatores como o câmbio, o comportamento do preço internacional do petróleo e a política de preços da Petrobras.
Em um cenário-base considerado pelo especialista, com alta de 10% no barril do petróleo Brent e câmbio estável, o preço do diesel nas bombas poderia subir entre 3% e 7%, geralmente com um atraso de algumas semanas.
“O repasse do petróleo para o preço doméstico não é imediato nem completo, porque há impostos, biocombustíveis e margens na composição do preço. Além disso, esse repasse pode ser suavizado no curto prazo”, explica Boschi.
Conflito no Oriente Médio: alta do combustível pode pressionar fretes
Como o diesel representa a maior parte dos custos do transporte rodoviário, qualquer variação no combustível tende a repercutir na cadeia logística.
Segundo Boschi, estimativas indicam que o diesel responde por cerca de 35% do custo operacional do transporte de cargas.
“Se o diesel subir entre 3% e 7%, o custo do frete pode aumentar aproximadamente entre 1,1% e 2,5%, com parte desse impacto sendo repassado ao valor final do frete”, afirma.
De acordo com o especialista, indicadores de mercado apontam que o frete medido por índices nacionais pode registrar elevação entre 1% e 3% por quilômetro, geralmente com um intervalo de um a três meses após a alta do combustível.
Conflito no Oriente Médio: impacto pode chegar também à inflação
O aumento do diesel não afeta apenas o transporte rodoviário. Como a maior parte da carga no Brasil circula por caminhões, o encarecimento do combustível tende a repercutir em toda a cadeia de distribuição.
Boschi explica que, em um cenário de alta de 10% no petróleo, o impacto sobre o índice oficial de inflação pode variar entre 0,05 e 0,20 ponto percentual no IPCA no curto prazo.
“Parte desse impacto aparece rapidamente nos combustíveis e outra parte surge gradualmente, conforme o frete mais caro encarece produtos e alimentos ao longo da cadeia”, diz.
Risco de desabastecimento é considerado baixo
Apesar das incertezas geopolíticas, especialistas avaliam que o Brasil possui certa capacidade de absorver choques externos no mercado de petróleo.
Para Volney Gouveia, gestor adjunto da Escola de Negócios da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), o país possui relativa autonomia na produção de derivados.
“O Brasil importa cerca de 25% do diesel que consome, mas a maior parte da produção é interna. Por isso, não há perspectiva de desabastecimento no curto prazo”, afirma.
Segundo ele, o setor de transporte consome aproximadamente 56 bilhões de litros de diesel por ano, dentro de um mercado total de cerca de 71 bilhões de litros no País.
Caso um aumento de cerca de 15% no preço internacional do petróleo seja repassado ao diesel, o custo adicional para o setor de transporte poderia chegar a R$ 50 bilhões por ano.
Oscilação do diesel já desafia transportadores
Para Ricardo Balistiero, economista e coordenador do Núcleo de Negócios do Instituto Mauá de Tecnologia, a volatilidade do diesel já representa um desafio estrutural para o transporte rodoviário no Brasil.
“Como o país é continental, muitas vezes o transportador fecha um frete e, até chegar ao destino, o preço do diesel já mudou várias vezes, comprometendo a margem da operação”, explica.
Esse cenário se soma a outro problema estrutural do setor: o excesso de oferta de caminhões.
Instabilidade externa preocupa mais que juros
Segundo Balistiero, o principal risco para o setor neste momento não está necessariamente nos juros elevados, algo historicamente presente na economia brasileira, mas na instabilidade internacional e nos possíveis reflexos sobre o mercado de energia.
“Juros altos não são novidade no Brasil. Convivemos com isso há décadas. O que preocupa mais agora é a instabilidade externa e a possibilidade de uma alta mais persistente no preço do barril do petróleo”, afirma.
De acordo com o economista, a duração do conflito e o grau de envolvimento das potências internacionais serão determinantes para definir os efeitos sobre os custos do transporte.
“Tudo vai depender de como essa guerra evoluir nas próximas semanas. Caso haja um arrefecimento das tensões, os impactos tendem a ser mais limitados”, explica.
Nesse contexto, conflitos prolongados tendem a aumentar a volatilidade do petróleo e gerar incertezas nos mercados, afetando diretamente setores intensivos em combustível, como o transporte rodoviário.
“O grande risco hoje para a saúde financeira das transportadoras e dos caminhoneiros autônomos está mais ligado ao cenário externo do que ao ambiente doméstico de juros”, conclui.
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Balistiero lembra que o mercado ainda sente os efeitos de políticas de crédito do passado que estimularam a compra de veículos.
“Há cerca de dez anos foram abertas linhas de crédito subsidiadas que estimularam a compra de caminhões. Isso gerou um excesso de oferta de frete no País e pressionou os preços”, afirma.
Em um cenário de instabilidade internacional, aumento do diesel e juros elevados, transportadores podem optar por adiar investimentos em novos caminhões, dependendo da evolução da economia.
Para Volney Gouveia, o comportamento do mercado dependerá principalmente do ritmo de crescimento do país.
“Se houver repasse do aumento do petróleo para o diesel, pode haver queda na demanda por caminhões, dependendo da duração e da intensidade da crise”, conclui.






