A renovação de frota voltou ao centro das discussões do transporte rodoviário de cargas com o avanço do programa Move Brasil. Em um cenário de juros elevados e mercado retraído, a iniciativa do Governo Federal surge como alternativa para estimular a compra de caminhões novos e seminovos e reduzir a idade média da frota brasileira.
Segundo dados do RNTRC, o Brasil tem cerca de 2,8 milhões de caminhões em circulação, sendo mais de 300 mil com mais de 20 anos de uso, grande parte nas mãos de caminhoneiros autônomos. Esse envelhecimento impacta diretamente a segurança viária, os custos operacionais e as metas de descarbonização do setor.
Move Brasil movimenta R$ 4,2 bilhões
Integrado ao BNDES Renovação de Frota, o Move Brasil disponibilizou inicialmente R$ 10 bilhões para financiar caminhões novos mais eficientes e seminovos fabricados a partir de 2012, desde que atendam às normas ambientais.
Em apenas dois meses, o programa já movimentou R$ 4,2 bilhões. Parte dos recursos foi destinada a caminhoneiros autônomos, público que enfrenta maior dificuldade de acesso ao crédito.
A principal vantagem está na redução das taxas de juros. Enquanto o financiamento tradicional pode superar 20% ao ano, o Move Brasil opera com taxas entre 13% e 14% ao ano, além de carência e prazo estendido para pagamento. A diferença no valor final da parcela chega a ser decisiva para fechar negócio.
Renovação de frota: autônomos ganham acesso ampliado
Um dos diferenciais do Move Brasil é a reserva de recursos para caminhoneiros autônomos e cooperados. Além do financiamento de veículos novos, o programa contempla seminovos, ampliando as possibilidades de renovação para quem opera com menor capital.
A expectativa é de que o acesso a crédito mais barato reduza a idade média da frota e aumente a eficiência logística, com ganhos em consumo de combustível, segurança e emissões.
Política permanente?
Apesar dos resultados iniciais positivos, o futuro do programa ainda depende de tramitação no Congresso. Representantes da indústria defendem que a renovação de frota seja tratada como política pública estrutural, garantindo previsibilidade ao setor.
A combinação entre crédito acessível, modernização tecnológica e incentivo à indústria nacional é vista como fundamental para sustentar o mercado de caminhões em 2026 e avançar na competitividade do transporte rodoviário brasileiro.
De acordo com vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, o governo estuda a criação de um programa perene, sustentado por dois fundos, um vinculado ao Ministério dos Transportes e outro à Petrobras, com o objetivo de garantir a equalização contínua das taxas de juros.
Indústria vê retomada no primeiro semestre
Montadoras avaliam que o programa chega em momento estratégico, especialmente após um 2025 marcado por retração no segmento de pesados e extrapesados.
Para fabricantes como a Volkswagen Caminhões e Ônibus, Scania, Mercedes-Benz, Iveco, DAF Caminhões e Volvo Caminhões, a redução no custo do crédito já estimula a antecipação de compras e melhora o fluxo nas concessionárias.
O impacto tende a ser mais forte no primeiro semestre, com possível acomodação após o término dos recursos. Ainda assim, executivos do setor defendem que a iniciativa vá além de uma medida temporária.
Volkswagen Caminhões e Ônibus: redução de até 35% no custo do crédito
Para a montadora, o diferencial do Move Brasil está na queda expressiva do custo financeiro. A taxa mensal próxima de 1,05% representa redução de até 35% em relação ao CDC tradicional.
Para Ricardo Alouche, vice-presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus, o grande diferencial está no custo financeiro. “O programa chegou em um momento muito oportuno. A redução da taxa já está aquecendo as vendas e estimulando a antecipação de compras. O desafio, agora, é ajustar produção e estoques diante da possível elevação da demanda”, disse
Scania: fôlego após desaceleração
Para Alex Nucci, diretor da Scania, o alto custo do crédito era o principal entrave do setor. “Quando você reduz de 18% ou 20% para algo em torno de 13% ao ano, a diferença na parcela é extremamente relevante. Isso devolve fôlego ao mercado. A expectativa é de recuperação principalmente no segmento de pesados, que vinha registrando retração”, opinou.
A montadora vê o programa como economicamente racional e com potencial para se tornar permanente, sem distorções artificiais. O segmento de pesados deve ser um dos principais beneficiados.
Mercedes-Benz: renovação é questão estrutural
Para a Mercedes-Benz, o programa vai além de estímulo pontual às vendas. A empresa destaca que mais de 300 mil caminhões com mais de 20 anos circulam no País, o que reforça a urgência da modernização.
A marca considera fundamental manter linhas de crédito atrativas, especialmente para caminhoneiros autônomos, e defende que a renovação de frota seja tratada como política pública permanente.
Jefferson Ferrarez, vice-presidente de Vendas, Marketing e Peças & Serviços Caminhões da Mercedes-Benz do Brasil, destaca que o debate vai além das vendas. “Falar em renovação de frota é falar, obrigatoriamente, em crédito viável. O Move Brasil torna essa modernização factível para frotistas e autônomos.”
Iveco: programa chega à ponta
Na avaliação da Iveco, o Move Brasil conecta governo, indústria e rede de concessionárias, garantindo que o crédito chegue efetivamente ao transportador.
A montadora destaca que o programa responde a três desafios simultâneos: juros elevados, retração nas vendas e envelhecimento da frota. O impacto é esperado tanto nos pesados quanto nos leves e médios, beneficiando também operações urbanas e regionais.
Para Marco Pacheco, diretor comercial da montadora, o programa responde diretamente às dificuldades do setor. “Ao criar condições reais de acesso ao crédito, o Move Brasil destrava o mercado e viabiliza a renovação da frota.”
DAF Caminhões: crédito viável destrava decisões
Luis Gambim, diretor Comercial da DAF, avalia que o programa reconhece o caminhão como ferramenta estratégica para o desenvolvimento do País. “Com taxas mais acessíveis que o patamar atual da Selic, o Move Brasil destrava decisões de compra que estavam represadas”, destaca.
A expectativa é de recuperação nos segmentos de semipesados e pesados, especialmente impulsionada pelo agronegócio.
Volvo Caminhões: antecipação de compras no curto prazo
A Volvo avalia que o programa ganhou tração a partir da plena operação das linhas nos bancos. A redução da taxa anual gera impacto relevante na parcela e tem provocado corrida ao crédito.
A montadora, porém, pondera que parte do movimento pode representar antecipação de compras, com possível acomodação após o término dos recursos, reforçando a importância de previsibilidade para o setor. “Quando você compara uma taxa de mercado acima de 20% com algo próximo de 13%, o impacto é muito relevante. Isso gera uma corrida para aproveitar o momento”, avalia Alcides Cavalcanti, diretor-executivo da Volvo Caminhões.
Matéria completa na edição 573 da Revista O Carreteiro
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