No Dia do Motorista, a valorização da profissão precisa ocupar o centro das discussões sobre o transporte rodoviário. Mais do que homenagear quem conduz caminhões pelas estradas brasileiras, esta é uma oportunidade para refletir sobre os desafios que ameaçam o futuro da profissão. Afinal, mais de 60% das cargas movimentadas no Brasil seguem pelas rodovias e dependem diretamente do trabalho do motorista para chegar ao destino.
Alimentos, medicamentos, combustíveis e insumos para a indústria chegam diariamente aos quatro cantos do País graças ao caminhoneiro. Mesmo assim, quem mantém o Brasil abastecido ainda convive com infraestrutura precária, insegurança, dificuldades para cumprir a legislação e uma profissão que perde espaço entre as novas gerações.
A importância do motorista ficou evidente durante a paralisação dos caminhoneiros, em 2018. Em poucos dias, postos ficaram sem combustíveis, supermercados enfrentaram desabastecimento e diversos setores da economia sentiram os impactos. O episódio mostrou o quanto o Brasil depende do transporte rodoviário. No entanto, muitos dos problemas enfrentados pela categoria continuam sem solução.
Dia do Motorista reforça a importância da valorização da profissão
Embora o caminhão seja o principal responsável pelo abastecimento do País, a valorização do motorista ainda está longe do necessário.
Para Paulo Buriti, gerente corporativo da Corpvs, empresa especializada em telemetria, monitoramento e segurança operacional, reconhecer a importância do motorista exige mais do que discursos. “Sem o caminhoneiro, o Brasil para. É uma atividade essencial para o crescimento econômico, mas ainda distante do reconhecimento compatível com sua importância.”
Além da remuneração, o executivo destaca a falta de infraestrutura nas rodovias. Em muitas viagens, o motorista não encontra locais seguros para estacionar, descansar, tomar banho ou fazer uma refeição. “A rotina é pesada. Muitas vezes o motorista não encontra estrutura adequada durante a viagem e ainda convive com uma remuneração que nem sempre corresponde ao nível de responsabilidade que assume diariamente.”
Como consequência, cumprir a Lei do Descanso ainda representa um desafio. Apesar dos avanços da legislação, muitos trechos das rodovias brasileiras continuam sem pontos de parada suficientes para que o motorista faça o repouso obrigatório com segurança.
Além disso, muitos caminhoneiros autônomos enfrentam dificuldades para manter a atividade economicamente viável. Embora o piso mínimo do frete tenha representado uma conquista importante, os altos custos de operação reduzem a rentabilidade de quem trabalha com caminhões mais antigos.
Motorista enfrenta desafios para renovar a frota
Ao mesmo tempo em que o transporte discute descarbonização, milhares de motoristas ainda trabalham com caminhões que ultrapassam 20 anos de uso. Esses veículos emitem mais poluentes, oferecem menor eficiência e exigem gastos maiores com manutenção. Entretanto, renovar a frota continua distante da realidade de muitos transportadores autônomos.
Sem linhas de crédito mais acessíveis e políticas públicas voltadas à renovação da frota, a responsabilidade pela redução das emissões acaba recaindo justamente sobre quem possui menor capacidade de investimento.
Falta de motorista preocupa o transporte rodoviário
Enquanto a tecnologia evolui e os caminhões se tornam mais modernos, encontrar um motorista disponível para assumir o volante virou um dos maiores desafios das transportadoras.
Hoje, o Brasil enfrenta uma escassez estimada entre 120 mil e 150 mil motoristas profissionais. Além disso, dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram queda na emissão e na renovação das CNHs das categorias C, D e E. O problema também aparece em outros países. Segundo a International Road Transport Union (IRU), cerca de 2,9 milhões de vagas para motoristas permanecem abertas em 18 mercados ao redor do mundo.
Por isso, a retenção de profissionais tornou-se prioridade para as empresas. Segundo Anaelse Oliveira, coordenadora do Programa Volvo de Segurança no Trânsito (PVST), preservar quem já atua na profissão é tão importante quanto formar novos motoristas. “É um desafio transformar o motorista autônomo em parte integrante da estratégia de gestão de riscos das empresas. Estender as ações de conscientização contribui para reduzir acidentes, diminuir prejuízos e aumentar a eficiência operacional.”
Por que os jovens não querem ser motorista?
A falta de renovação da mão de obra tem várias explicações. Entre os principais motivos estão a insegurança nas estradas, os roubos de carga, a precariedade da infraestrutura, a ausência de pontos de parada seguros, o longo período longe da família e o elevado custo para conquistar a habilitação profissional.
Além disso, muitos profissionais optam por trabalhar em países como Portugal, Inglaterra e Estados Unidos, onde encontram melhores salários, infraestrutura mais adequada e maior qualidade de vida. Como resultado, a idade média da categoria aumenta ano após ano, enquanto o número de jovens interessados em seguir a profissão diminui.
Tecnologia ajuda o motorista a dirigir com mais segurança
Apesar dos desafios, a tecnologia começa a transformar a rotina do motorista. Hoje, sistemas de telemetria, videotelemetria, inteligência artificial e monitoramento em tempo real identificam sinais de fadiga, distração, uso do celular ao volante e outros comportamentos que aumentam o risco de acidentes. Segundo Paulo Buriti, esses recursos deixaram de apenas acompanhar a viagem.
“A tecnologia conversa com o motorista. Quando identifica sinais de sonolência ou perda de atenção, emite alertas e recomenda uma parada para descanso.” Além disso, câmeras embarcadas e sistemas inteligentes registram imagens e informações que ajudam a esclarecer acidentes e oferecem maior proteção jurídica ao motorista.
Ao mesmo tempo, as transportadoras investem em caminhões mais confortáveis, conectividade, programas de treinamento e ações voltadas à segurança dos motoristas próprios, agregados e autônomos.
Valorização da profissão é investir no futuro do transporte
O Dia do Motorista vai muito além de uma homenagem. A data também reforça a necessidade de criar condições para que mais pessoas escolham essa profissão e permaneçam nela. Isso passa por investimentos em infraestrutura, ampliação dos pontos de parada, mais segurança nas rodovias, políticas para renovação da frota, qualificação profissional e remuneração compatível com a responsabilidade da atividade.
Sem essas mudanças, o transporte rodoviário continuará enfrentando dificuldades para substituir os profissionais que deixam a profissão.Valorizar o motorista significa fortalecer toda a cadeia logística. Afinal, quando o motorista encontra melhores condições para trabalhar, o transporte ganha eficiência, a economia se torna mais competitiva e o Brasil segue em movimento.
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