Roubo de carga continua sendo uma das principais ameaças ao transporte rodoviário brasileiro. Embora o número de ocorrências tenha recuado 8,71% entre janeiro e maio de 2026 na comparação com o mesmo período do ano passado, o crime ainda preocupa transportadores, embarcadores e caminhoneiros. Além da forte concentração dos casos na região Sudeste, estudos mostram que as quadrilhas passaram a atacar cargas de maior valor agregado, o que aumenta os prejuízos financeiros mesmo com menos registros.

Os dados constam no Relatório Técnico de Inteligência Estatística – Análise das Ocorrências de Roubo de Carga no Brasil, divulgado pela NTC&Logística com base em informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Sinesp, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.

Roubo de carga ainda supera 3,3 mil ocorrências em cinco meses

Segundo o Relatório Técnico de Inteligência Estatística da NTC&Logística, o Brasil registrou 3.397 ocorrências de roubo de carga entre janeiro e maio de 2026, contra 3.721 casos no mesmo período de 2025. Na prática, foram 324 ocorrências a menos, o que representa uma redução de 8,71%.

Apesar da queda, o volume permanece elevado e continua pressionando toda a cadeia logística. Afinal, o roubo de carga aumenta os custos do transporte, encarece os seguros, compromete as operações e coloca motoristas em situações de risco.

A evolução mensal também revela oscilações. Em janeiro foram 750 ocorrências, contra 806 no mesmo mês de 2025. Fevereiro caiu de 792 para 616 casos. Em março houve alta, passando de 680 para 790 registros, enquanto abril subiu de 700 para 735 ocorrências. Já maio apresentou a maior redução do período, recuando de 743 para 506 casos.

Todos os dados estatísticos são da NTC&Logística, com base em informações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Sinesp, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal.

Roubo de carga segue concentrado no Sudeste

Os dados da NTC&Logística mostram que o roubo de carga continua fortemente concentrado na região Sudeste, responsável por 89,96% de todas as ocorrências registradas no país entre janeiro e maio de 2026. No período, a região contabilizou 3.056 casos.

O Nordeste aparece na sequência com 260 ocorrências (7,65%), seguido pelo Norte, com 42 registros (1,24%), Sul, com 21 casos (0,62%), e Centro-Oeste, com 18 ocorrências (0,53%).

Quando a análise é feita por estado, o Rio de Janeiro lidera com 1.958 ocorrências, o equivalente a 57,64% do total nacional. Em seguida aparece São Paulo, com 1.060 registros, ou 31,20% dos casos.

Na prática, Rio de Janeiro e São Paulo concentraram juntos 3.018 ocorrências, o equivalente a 88,84% de todos os roubos de carga registrados no Brasil no período analisado pela NTC&Logística. Pernambuco (115 casos), Bahia (68) e Pará (40) completam a lista dos estados com maior número de registros.

Menos roubos, mas prejuízo financeiro aumenta

Apesar da redução no número de ocorrências, outro levantamento mostra que os prejuízos continuam crescendo. Um estudo realizado pela ICTS Security, consultoria especializada em segurança e gestão de risco, identificou que, entre 2023 e 2024, o número de roubos de carga caiu 11%, enquanto as perdas financeiras aumentaram 21%, alcançando R$ 1,217 bilhão.

Segundo a pesquisa, as organizações criminosas passaram a selecionar cargas com maior valor agregado e rápida revenda, como medicamentos, alimentos, cigarros, eletroeletrônicos e cosméticos. Dessa maneira, mesmo com menos ataques, o impacto financeiro sobre transportadoras, embarcadores e seguradoras tornou-se ainda maior.

O estudo também confirma a concentração das perdas na região Sudeste, responsável por 83,6% dos prejuízos nacionais. São Paulo responde por 47,2% das perdas, seguido pelo Rio de Janeiro, com 18,7%, e Minas Gerais, com 14,2%. Ao mesmo tempo, o Nordeste ampliou sua participação nos prejuízos, impulsionado pelos corredores logísticos de Pernambuco, Maranhão e Bahia.

Para Anderson Hoelbriegel, diretor de Negócios da ICTS Security, o roubo de carga tornou-se um crime altamente estratégico. Segundo ele, as quadrilhas estudam horários, rotas, datas comerciais e o perfil das mercadorias antes de agir.

O executivo explica que hoje os criminosos contam com planejamento logístico, bloqueadores de sinal, veículos de apoio e equipes preparadas para realizar o transbordo da carga em poucos minutos. Além disso, cresce o uso de fraudes documentais, clonagem de placas e informações obtidas em redes sociais e na internet para viabilizar os ataques.

NTC projeta mais de 8 mil roubos de carga em 2026

Com base na média mensal registrada entre janeiro e maio, a NTC&Logística projeta que o Brasil poderá encerrar 2026 com aproximadamente 8.153 ocorrências de roubo de carga. Para o primeiro semestre, a estimativa é de 4.076 casos.

A entidade ressalta que essa projeção utiliza um modelo de projeção estatística linear simples, elaborado exclusivamente a partir da média dos cinco primeiros meses do ano. Portanto, o cálculo não considera fatores sazonais nem possíveis mudanças metodológicas ao longo de 2026.

Diante desse cenário, especialistas defendem que combater o roubo de carga exige muito mais do que rastreadores e bloqueadores eletrônicos. A prevenção passa pela integração entre tecnologia, inteligência, processos e pessoas. Além dos investimentos em monitoramento e gerenciamento de risco, empresas têm reforçado programas de integridade, treinamento de motoristas, controle de informações e análise de dados para identificar padrões e antecipar ameaças.

 

Roubo de carga de medicamentos amplia impacto sobre a sociedade

Além dos prejuízos financeiros para transportadoras, embarcadores e seguradoras, o roubo de carga pode comprometer diretamente a saúde pública. Esse é o caso das cargas de medicamentos, que exigem condições rigorosas de transporte, armazenamento e controle de temperatura para manter a eficácia dos tratamentos.

Em manifestação recente, a NTC&Logística destacou que o roubo desse tipo de carga vai muito além de uma perda patrimonial. Quando medicamentos destinados ao tratamento de pacientes com câncer e outras doenças graves são desviados por organizações criminosas, milhares de pessoas podem ser afetadas pela interrupção no abastecimento e pelo risco de circulação de produtos sem garantia de conservação.

O posicionamento da entidade ocorreu após a Operação Metástase, realizada pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, que desarticulou uma organização criminosa investigada por envolvimento em roubos de cargas de medicamentos. Para a NTC&Logística, ações como essa demonstram a importância da integração entre as forças de segurança e o setor de transporte no enfrentamento desse tipo de crime.

A entidade também alerta que o combate ao roubo de carga precisa atingir toda a cadeia criminosa. Além de prender os responsáveis pelos assaltos, é fundamental combater a receptação, identificar empresas de fachada e impedir a comercialização de produtos de origem ilegal. Afinal, sem compradores, o mercado para cargas roubadas perde força.

Segundo a NTC&Logística, proteger a logística nacional significa garantir o abastecimento de produtos essenciais, como medicamentos, alimentos e insumos estratégicos. Por isso, a entidade defende investimentos contínuos em gerenciamento de risco, inteligência, monitoramento, capacitação de motoristas e cooperação entre empresas e órgãos de segurança pública para reduzir a criminalidade nas rodovias.

Leia mais: