Dirigir caminhão é um sonho para muitos brasileiros, e não é diferente entre os motoristas surdos. Apesar de a legislação permitir que obtenham habilitação nas categorias profissionais, motoristas relatam que ainda encontram barreiras, preconceito e falta de apoio tanto nas empresas quanto em órgãos públicos.

Raquel Moreno é idealizadora do projeto Caminhoneiros Surdos do Brasil, que tem o objetivo de incluir motoristas surdos no mercado de trabalho. Hoje a lei já garante esse direito, e existe um projeto de lei em tramitação no Senado (PL 2634/21) para ampliar ainda mais essa inclusão. O texto já passou por algumas comissões, mas está parado.

A legislação exige que o candidato tenha, no seu melhor ouvido, no máximo 40 decibéis de perda auditiva. Ele pode, por exemplo, ser surdo profundo de um lado e ter até 40 dB de audição no outro. O uso de aparelho auditivo é obrigatório. Portanto, mesmo os motorista com 70 dB de perda pode ser habilitado se, com o aparelho, atingir os 40 dB exigidos.

WhatsApp Image 2025 09 24 at 15.27.36“Atualmente estima-se que existam mais de 50 caminhoneiros surdos habilitados no Brasil. Entretanto, apenas cerca de 10% realmente estão trabalhando e a maioria atua profissionalmente tem caminhão próprio. O preconceito e a falta de informação são os grandes desafios. Muitas pessoas questionam como o surdo vai saber se um pneus estourou ou ouvir a sirene da ambulância. O percebe a vibração de um pneu estourado e enxerga a ambulância pelo retrovisor. A limitação não impede a direção segura”, destacou.

O maior obstáculo, segundo Raquel, está nos Detrans e em algumas entidades que não apoiam essa causa. Muitas vezes o candidato passa em todos os exames, mas não é aprovado por falta de preparo ou até má vontade. Tem surdo que não consegue sequer passar da recepção por não haver intérprete. “Muitas vezes eu mesma faço videochamadas para intermediar a comunicação entre o médico e o candidato”, desabafa.

Motoristas surdos: preconceito e falta de informação ainda são as principais dificuldades

motoristas surdos

Assim como Raquel, o jovem Murilo Ferreira também sente que ainda precisa vencer a barreira do preconceito. “Meu sonho é ser motorista de caminhão. Eu estudei, tirei a carteira, mas quando chego para procurar emprego, muitas vezes não acreditam que eu posso dirigir. Não é falta de capacidade, é falta de confiança das pessoas”, relata.

 

 

WhatsApp Image 2025 09 24 at 15.27.37 1O caso de William André de Santana, de 27 anos, mostra como essa resistência aparece dentro do próprio ambiente de trabalho. Há quase três décadas empregado como sepultador no mesmo cemitério, ele já tentou, sem sucesso, ser aproveitado como motorista. “Eu tenho categoria D e já enviei meus documentos para o RH, mas até hoje não tive resposta. Outros colegas, com carteira B, conseguiram autorização para dirigir. Eu acredito que isso seja preconceito, porque parece que não confiam em mim. Eu sei que sou capaz. Sempre respeitei a empresa, mas fico indignado com essa falta de oportunidade”, desabafa.

 

 

WhatsApp Image 2025 09 24 at 15.27.37Já Daniel Valter cresceu no meio dos caminhões, inspirado pelo pai. Hoje, dirige rotas longas pelo Sul e Sudeste, mas relata que a comunicação na estrada ainda é um desafio. “Quando preciso, escrevo mensagens ou uso mímica. Não sei Libras, mas consigo me virar. Uma vez, a polícia me parou por causa de uma luz de LED no caminhão. Eu expliquei por gestos e resolveram. Outra vez, na pandemia, não entendi nada do que o policial escreveu e meu pai teve que me ajudar”, lembra.

Para Daniel, a experiência mostra que ainda falta preparo das instituições para lidar com motoristas surdos.
“Ser surdo na estrada exige força, luta e muito aprendizado. Nós somos visuais, buscamos entender pelo olhar. Com mais apoio e compreensão, podemos continuar evoluindo e conquistando espaço no transporte”, reforça.

As histórias de Raquel, Murilo, William e Daniel revelam um cenário de persistência diante das dificuldades. Apesar das conquistas individuais, o que todos têm em comum é a busca por pertencimento e reconhecimento. O sonho de estar ao volante não depende apenas da habilitação em carteira, mas de uma mudança cultural no setor de transportes para que motoristas surdos tenham, de fato, acesso às mesmas oportunidades.

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Caminhoneiros do Brasil: projeto valoriza a profissão