As mulheres estão conquistando cada vez mais o seu espaço no mercado de trabalho. De acordo com o Ministério do Trabalho, com base na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2017, as mulheres já ocupam 44% dos 37,6 milhões de postos de trabalhos formais do país. Esse índice era de 40,85% em 2007. Apenas no Distrito Federal elas estão em maior número do que os homens, onde predomina o funcionalismo público, como aponta a pesquisa.
Falar de mulheres ocupando cargos de liderança em gestão ou até mesmo dirigindo caminhões deixou de ser um tema encarado com resistência e passou a ser realidade dentro de algumas empresas do País. Assim setores que antes eram dominados pelo sexo masculino, como o de transporte, hoje já oferecem oportunidade para o público feminino.
A preferência pela mão de obra feminina em certas funções já é realidade em algumas corporações seja pelo maior cuidado ou aumento de produtividade e menor índice de retrabalho. ‘’Conseguimos mostrar que competência não tem sexo, abrindo mercado de trabalho para as mulheres que colaboraram para o aumento da produtividade e da melhoria da capacitação no setor do TRC – Transporte Rodoviário de Carga’’, afirmou Urubatan Helou, diretor presidente da Braspress.
A Braspress promove um programa de treinamento específico para este público e hoje conta hoje com um quadro de 101 motoristas do sexo feminino. No total, a Braspress conta com 22,9% de seu quadro de colaboradores do sexo feminino, cerca de 1.331 mulheres.
Os controles internos mostraram que as motoristas mulheres têm maiores cuidados operacionais com os veículos colaborando para a manutenção dos caminhões e sabem ser educadas nos relacionamentos com os clientes e no trânsito são pacientes.
‘’Com isso, ocorreu a redução de batidas e dos custos de manutenção, incluindo funilaria. Além do que, temos encontrado em nossas motoristas mulheres um diálogo muito mais eficaz com os nossos destinatários, mesmo nos centros comerciais e industriais’’, finalizou Urubatan Helou.
Já a MAN Latin America anunciou recentemente que pretende atingir até 2025, percentual de 20% de seu quadro executivo formado por mulheres. A empresa possui mulheres em cargo de liderança até mesmo em áreas extremamente técnicas como a de motores e projetos especiais.

“Elas são praticamente 60% da nossa força de trabalho. São atividades que exigem mais atenção e delicadeza, características que as mulheres exibem bem mais do que os homens. Com elas praticamente não há retrabalho, o que nos possibilita ter uma equipe 30% mais produtiva”, afirma Elisa Pellini, gerente de logística na Ativa.
Atualmente, 22% do quadro de funcionários da Ativa, que tem 17 unidades em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Santa Catarina, é formado por mulheres, que ocupam espaço especialmente nas áreas operacionais e administrativas. Quinze delas, como a própria Elisa Pellini, ocupam cargos de gestão, atuando como gerentes, coordenadoras e supervisoras.

A paixão pelo setor de transporte começou na infância. Ela vem de uma família de caminhoneiros, pai, tios, avós. Aprendeu a dirigir caminhão com o irmão mais velho e viajou muito na boleia conhecendo de perto os problemas da estrada e o dia a dia desses profissionais.

Para driblar essa resistência, a empresária explica que foi impondo os procedimentos, fazendo reuniões constantes e juntamente com o RH foi mostrando que tudo o que estava sendo aplicado eram procedimentos da Extramila e não da “Ducimara”.

“Meu pai foi o fundador da empresa , iniciou dirigindo seu primeiro caminhão e crescemos nesse ambiente de transportes , fretes , cargas , preço do diesel , pedágios. E aos poucos fui me interessando pelo setor e direcionei minha carreia profissional para essa área”, lembra.
O preconceito era um dos temores do pai de Bárbara, porém isso acabou ajudando ela a se preparar para os desafios que iria enfrentar. “O transporte é um setor extremamente fechado e machista. Com conceitos muito arraigados de que mulher é muito delicada e não consegue aguentar o tranco de trabalhar “com caminhões””, brinca.
Duas questões acompanharam Barbara no começo da carreira. A primeira o fato de ser mulher e a segunda ser “a filha do dono”. Por esses motivos muitas vezes foi desacredita e até menosprezada. “Nunca era o suficientemente boa ou profissional , sempre escutava as célebres frases: mas ela é mulher , ou mas ela é a filha do chefe”, explica.

Mas a executiva acredita que todo esse universo de preconceito a fez amadurecer mais cedo e consolidar suas escolhas. Ela se dedicou, se especializou nos estudos e mostrou suas capacidades e habilidades gerenciais. “Hoje o cenário é bastante diferente, a mulher já é muito bem aceita no mercado de transportes. Com muita luta e determinação as mulheres têm avançado cada vez mais no mercado de trabalho. No setor de transportes esta caminhada deu-se de forma um pouco mais lenta, devido a tradição do setor ser muito masculina e a cultura num geral acreditar que transporte é lugar de homem. Apesar de todos esses fatores , as mulheres foram se capacitando, se profissionalizando e cada vez mais ocupando cargos importantes no setor, hoje possuímos excelentes lideres mulheres nas principais entidades de classe, grandes empresas de transporte e logística e no mercado como um todo”.
Na opinião de Barbara essa tendência é permanente e cada vez mais as mulheres estarão a frente dos negócios por suas habilidades profissionais e emocionais. Segundo ela, a entrada das mulheres no setor de transportes rodoviários de cargas conseguiu trazer uma outra visão dos mesmos processos e sistemas, já que tem a característica nata de humanizar os ambientes, proporcionando conexões humanas focadas em melhorar o ambiente de trabalho e com isso a produtividade.
Alice Mara Presser, 58 anos de idade e 13 de profissão, é de São Bernardo do Campo/SP, e atua como motorista no transporte de combustível na empresa Transjordano. Ela faz viaja para Rondonópolis/MT. Ela conta que largou a profissão de cozinheira em creche municipal para seguir o sonho de ser motorista de caminhão. Na época tinha 45 anos e amigos diziam ser uma loucura. Mas, mesmo assim decidiu enfrentar todas as adversidades.

Hoje, conforme explica Mara – como gosta de ser chamada -, o principal desafio de uma mulher na estrada é a falta de infraestrutura. A maioria dos locais de parada não disponibilizam banheiros adequados. “O que mais se vê por ai são banheiros sujos sem um apoio para pendurar nossas coisas. É complicado”, reclama.
Para as aspirantes a profissão, a veterana dá alguns conselhos. “Primeiro se é um sonho não desista. Algumas portas vão se fechar, mas é normal persista. É importante se profissionalizar fazendo todos cursos disponíveis no mercado. Seja comunicativa, alegre mas nunca vulgar. Assédios vão existir mas não brigue e leve na esportiva deixando claro que veio trabalhar. Vida de caminhoneira não é fácil e você terá de driblar a saudade da família e de vida social”, finaliza.
Outra motorista que também está na ativa é Jaidete Licia Macedo, de 44 anos, Salvador/BA. Ela trabalha na TransR e também atua no transporte de combustível e viaja o Brasil inteiro. Licia, como prefere ser chamada, se casou com 15 anos com um caminhoneiro e desde então passou a viajar com ele e aos poucos foi se apaixonando pela profissão. Aprendeu a dirigir com ele. O casamento durou 13 anos e após a separação decidiu tirar a sua habilitação.

Para Licia a principal dificuldade também é a falta de infraestrutura na estrada para receber mulheres carreteiras. Conta que as vezes vai descarregar e só tem banheiro masculino ou aqueles que todos usam sem preservar a individualidade da mulher. Hoje, segundo ela, os postos já oferecem banheiro feminino o problema realmente está nas empresa que descarrega. “Mas como já percebi que eu tenho que me adaptar ao ambiente e não o contrário eu dou o meu jeito, e nunca deixei que isso fosse um problema para mim”, brinca.
Há nove anos na profissão, Lis Macedo Pinho, 27 de idade, é filha de Licia e afirma que a vontade de dirigir um caminhão começou na infância. “Minha mãe foi a minha inspiração. Costumo dizer que nasci com o diesel na veia. Trabalho na empresa Quimica Amparo, no transporte de produtos de limpeza e amo a minha profissão”, declara.

A principal dificuldade também esbarra na falta de infraestrutura nos pontos de paradas. “Acho que as vezes esquecem que mulher também passa por ali. Mas, mesmo assim, para a mulher que pensa em iniciar a profissão eu digo insista e não desista somos mais que vencedoras. Mulheres no comando, mulheres no poder”, finaliza.






