Por: Nilza Vaz Guimarães

A prostituição infantil e a exploração sexual de menores está presente em todas as capitais brasileiras, principalmente nas cidades litorâneas do Nordeste. Dados estatísticos comprovam que a violência dentro de suas próprias famílias levam a criança e o adolescente por este caminho, os quais são vulneráveis a esse tipo de atitude que causam danos irreparáveis para o seu desenvolvimento físico, psíquico, social e moral. Esses danos podem trazer conseqüências penosas como, por exemplo, o uso de drogas, o abandono dos estudos, a gravidez precoce indesejada, distúrbios de comportamento, condutas anti-sociais e infecções por doenças sexualmente transmissíveis.

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ocais com grande movimentação de caminhões e entroncamentos de rodovias como o de Feira de Santana/BA, o maior eixo rodoviário do Norte e Nordeste, e caminho para todas as estradas estaduais e BRs que cortam o Estado da Bahia, são estratégicos para a economia do País, mas por outro lado são pontos de encontro e desencontros, onde meninas menores são levadas e trazidas de outras cidades para ganhar a vida na prostituição.

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Na maioria das vezes fogem de suas casas numa boleia de caminhão para tentar uma vida melhor. Além de ser uma aventura perigosa, elas oferecem qualquer tipo de prazer para os carreteiros que comungam com esta investida. As formas adotadas pelas meninas e adolescentes em situação de exploração sexual são variadas. Algumas ficam nas beiras de estradas acenando para os carreteiros, enquanto outras, no horário entre 17 e 18 horas, abordam os mesmos no momento em que vão tomar banho, lanchar ou abastecer seus caminhões nos postos de combustíveis. O preço cobrado pelo programa depende do serviço prestado ao cliente. Pode custar apenas R$ 5, um prato de comida ou, então, até mesmo um refrigerante.

A.L.S., de apenas 14 anos, fugiu de sua casa porque era espancada diariamente por seu padrasto. Há 5 meses pediu carona para um carreteiro em Vitória da Conquista, Sudoeste da Bahia, e veio parar em Feira de Santana. Sem outra alternativa de vida, e carente emocionalmente, começou a se prostituir e a usar drogas. Ela diz que é melhor viver assim, na rua, mas ter como sobreviver. “Tenho roupas novas e bonitas, como comidas gostosas e até perfume do bom eu posso comprar”, afirma a menina.

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Outra, a adolescente J.S.S., loira, magra e com o rosto cheio de manchas, hoje com 16 anos, está nesta vida desde os oito anos de idade. Ela é de Barreiras, Oeste da Bahia, e chegou a Feira de Santana, na boléia de um caminhão, onde está até hoje. Diz ter saido de casa por não receber atenção dos pais. Começou fazendo sexo oral, aos 12 anos perdeu a virgindade e aos 13 começou a se drogar e a se prostituir para alimentar o vício.
Na opinião da maioria dos motoristas de caminhão, o governo deveria lançar programas para ajudar as famílias carentes, pois a exploração sexual infanto-juvenil é uma das mais cruéis conseqüências da miséria. Segundo o carreteiro, Valmor L. dos Santos, com 36 anos de experiência na boléia de uma carreta, e 57 anos de idade, hoje ninguém tem coragem de ficar se arriscando com meninas que ficam perambulando à noite nas estradas. “Elas roubam, são sujas e perigosas”, afirma o motorista que já viajou muito com sua mulher. Casado há 35 anos, ele conta que em uma das viagens com sua esposa, foi abordado por uma menina. “Elas levantam cerca de R$150 por noite e se forem trabalhar numa fábrica, por exemplo, irão receber salário mínimo por mês e ainda desconta isso e aquilo. O governo deveria incentivar o estudo, que é muito importante”, diz.
O carreteiro Mauro Soares da Silva, com 22 anos de estrada, concorda com o colega Valmor. “Não compensa andar com estas meninas. Elas já têm cara de mulheres, de tão acabadas que estão. Postos de serviço que não têm roubo são aqueles que não permitem que estas meninas circulem. Precisa explicar mais? Também não dou carona”, conclui.
Com 36 anos de estrada e 58 de idade, Raimundo Belmiro Albano de Souza, natural de Amélia Rodrigues, interior da Bahia, conta que quando era novo as meninas batiam na porta de seu caminhão se oferecendo por 2 contos, nem era Real, e ele mandava embora. Até hoje não dá carona a mulher de jeito nenhum e não pára em postos onde elas ficam. “Geralmente nestes lugares só tem ladrão, maconheiro e a gente corre o risco de ser roubado”. Ele diz que vê meninas pedindo carona e abordando os carreteiros nas estradas do Ceará, Pernambuco e Norte da Bahia.
Para o jovem carreteiro Ednei Viana de Melo, que transporta produtos eletrônicos, de São Paulo e Curitiba, pelo Brasil, a culpa desta situação é dos pais que as deixam sair a noite e não procuram saber para onde vão. Apesar de ficar muito tempo na estrada, cerca de 3 meses, não faz programas com mulheres e muito menos com meninas.
Há três anos viajando com seu pai, o carreteiro de 23 anos, Gilvan Silva, diz que nunca pegou e nunca gostou de prostitutas. “Tenho medo de pegar doenças”. Em Barreiras, conta o carreteiro, a Polícia Rodoviária Estadual bateu na porta de um caminhão e encontrou uma menina com aproximadamente 12 anos de idade. Na mesma hora os dois foram presos. Acho que deveriam ser feitas estas vistorias diariamente para ver se melhora a situação.
Seu pai, o carreteiro Gilson Andrade Santos, diz que na maioria dos postos de abastecimento têm meninas de 13 e 14 anos. “Quando começa a anoitecer elas vem procurar conversa”. De acordo com o senhor Gilson, existem muitas meninas pedindo carona nas estradas, principalmente no trecho de Jequié a Vitória da Conquista.

PS – Na próxima edição a segunda parte desta matéria: carreteiros que assumem fazer programas com meninas e as ações da Policia Rodoviária Federal para combater a prostituição infantil nas rodovias.